A casa do Seu Antônio tinha cheiro de café passado e pó de madeira. Ele estava na varanda, na cadeira de balanço, os olhos fixos no portão. A camisa xadrez azul e branca, o cabelo branco penteado para trás, as mãos apoiadas nos joelhos.
Luísa subiu os três degraus da entrada. A porta estava aberta. A cortina de crochê balançou com o vento.
— Seu Antônio?
Ele não virou a cabeça. Só moveu o queixo, um gesto curto.
— Ela não volta mais? — a voz dele era áspera.
Luísa puxou um banco de madeira, sentou perto dele. O sol da tarde batia nas plantas do quintal. Um beija-flor parou no ar, bico no bebedouro.
— Não volta mais.
Ele ficou em silêncio. O balanço rangeu.
— A senhora sabe que a gente contratou ela pra ajudar — Luísa disse. — Não pra tomar o seu lugar.
— Eu não preciso de ajuda.
— Eu sei.
Ela esperou. O beija-flor foi embora. O silêncio voltou.
— Sabe o que a Dona Margô — minha mãe — me disse quando eu comecei a trabalhar fora? — Luísa perguntou.
Ele virou a cabeça, agora sim.
— Ela disse que aceitar ajuda não é fraqueza. É inteligência.
Seu Antônio bufou.
— Sua mãe é sábia.
— É. Mas ela também demorou pra aprender. Ela me disse que quando meu pai morreu, ela tentou fazer tudo sozinha. Até que um dia caiu de exaustão na cozinha.
O balanço parou.
— Eu não caí — ele disse.
— Mas esqueceu o fogão aceso duas vezes. E açucarou o feijão.
Ele ficou quieto. A mão dele apertou o joelho.
— O que a senhora quer de mim?
— Nada. Só queria que a senhora considerasse.
Ela puxou a bolsa, tirou uma foto. Colocou na mão dele. A foto mostrava a candidata — uma senhora de cabelo grisalho, sorrindo, segurando uma bacia de plantas. Luísa imprimiu de propósito uma imagem que não parecesse profissional. Algo caseiro.
— O nome dela é Márcia. Ela cuidou de uma senhora de 89 anos por dois anos. A filha da senhora falou que a Márcia fazia bolo de milho toda quinta-feira. A senhora gostava de bolo de milho.
Seu Antônio olhou a foto.
— Ela não vai ficar em cima de mim?
— Não.
— Ela não vai me tratar como criança?
— Não.
— Ela vai me deixar regar minhas plantas?
— A gente combinou que sim.
Ele olhou a foto por mais um tempo. Depois colocou no bolso da camisa.
— Pode trazer ela de novo.
Luísa sentiu o ar sair, um peso que nem sabia que estava segurando.
— Obrigada, seu Antônio.
Ele não respondeu. Mas o balanço começou a se mover de novo. O vento balançou as plantas. O beija-flor voltou.
Ela ficou mais um pouco, sentada no banco, olhando o quintal. A conversa não tinha resolvido tudo. Mas tinha aberto uma porta.
*Continua em: livreto-023.md — Carlos divide custos com irmãos*