Como demitir cuidador sem constrangimento?

Carlos

A cozinha estava limpa. O café passado. A xícara na mesa, fumegando. A candidata — a segunda, depois que a Márcia não deu certo na primeira semana — estava sentada na cadeira da ponta, as mãos em volta da xícara, os olhos no líquido escuro.

Três dias. Tinha durado três dias.

Carlos sentou na cadeira em frente. A mesa de vidro entre eles. Pão na cesta, manteiga, um guardanapo de pano. Ele montou o cenário para ser educado. Não queria que parecesse uma emboscada.

— Obrigado por vir hoje — ele começou.

Ela levantou os olhos. Uma mulher de 45 anos, cabelo preso, unhas curtas. O currículo dela era bom. A entrevista foi boa. As referências confirmaram.

Mas o Seu Antônio não aceitou.

A culpa não era dela. Carlos sabia disso. Mas ele precisava dizer.

— A senhora fez tudo certo — ele disse. — O problema não é a senhora.

Ela esperou.

— Meu pai é teimoso. Muito teimoso. Ele não aceitou ajuda — da senhora, de ninguém. A gente tentou, mas não é culpa sua.

— Eu percebi — ela disse. A voz dela era baixa, calma. — Seu Antônio é resistente. Ele quer fazer as coisas do jeito dele.

— Pois é.

O silêncio. O café esfriando.

— Eu queria pedir desculpas — Carlos continuou. — A gente devia ter conversado melhor com ele antes de contratar. A senhora veio, se preparou, e não teve chance de mostrar o trabalho.

— Acontece. — Ela deu um meio sorriso. — Não é a primeira vez que eu passo por isso.

— Ainda assim.

Carlos pegou um envelope no bolso. Colocou na mesa, deslizou na direção dela.

— A gente combinou o aviso prévio de 15 dias. Mas eu não quero que a senhora trabalhe de graça nem fique sem o acerto. Aqui tá o valor dos três dias mais o aviso. Em dinheiro.

Ela olhou o envelope. Não abriu.

— O senhor não precisava.

— Precisava, sim. É o certo.

Ela guardou o envelope na bolsa. A alça de couro rangeu.

— O senhor é um bom filho — ela disse. — Seu pai é sortudo.

Carlos não soube o que responder. A garganta apertou.

— Se um dia ele aceitar, ou se a senhora tiver disponibilidade de novo, a gente pode tentar de novo — ele disse.

— Pode me ligar.

Ela se levantou. Carlos levantou junto. Apertaram a mão sobre a mesa. A mão dela era firme, seca.

— Boa sorte com seu pai — ela disse.

— Obrigado.

Ela saiu. A porta fechou. Carlos ficou sozinho na cozinha. A xícara de café dela ainda cheia, esfriando na mesa. O pão intacto no cesto.

Ele pegou a xícara, levou até a pia. O líquido escuro desceu pelo ralo.

Não era sobre a candidata. Era sobre o pai dele. E a conversa que ainda precisava ter.

*Continua em: livreto-022.md — Luísa conversa com seu Antônio*