Como lidar com folgas e férias?

Carlos

O telefone apitou duas vezes antes de atender.

— Alô? — a voz do Beto, ao fundo o barulho de loja, máquina registradora, gente falando.

— Beto, é o Carlos. Tá ocupado?

— Tô no expediente, mas posso falar. O que foi?

Carlos andava de um lado para o outro na sala. A mão livre na nuca. Toby acompanhava o vai-e-vem com os olhos, deitado no tapete.

— A Márcia começa semana que vem. A gente acertou o pagamento, as referências, o horário. Mas tem uma coisa que a gente não resolveu: as folgas.

— Folgas?

— Ela trabalha de segunda a sexta. Mas e os fins de semana? E férias? Se ela tirar um mês de férias, alguém precisa cobrir.

Beto ficou em silêncio. Só o barulho da loja ao fundo.

— A Clarinha não pode — ele disse. — Ela tá na faculdade, tem estágio.

— Eu sei.

— E a Dona Lúcia não dá conta sozinha.

— Também sei.

— Então sobra eu e você.

Carlos parou de andar. Encostou na parede da sala. A tinta fria no ombro.

— Pois é.

— Como você pensou?

Carlos já tinha matutado aquilo desde que contrataram a Márcia. Uma folha de papel na mesa do escritório com horários rabiscados.

— A Márcia folga sábado e domingo. A gente divide: um sábado cada um. Se for feriado, a gente alterna. E quando ela tirar férias, a gente divide os dias também.

— E a Clarinha?

— A Clarinha cobre um domingo por mês. Não é pesado. Ela pode vir, almoçar com o pai, passar a tarde. Não é cuidar, é fazer companhia.

Beto respirou fundo.

— Você já falou com ela?

— Ainda não. Queria alinhar com você primeiro.

— Tá. Então a gente faz assim: sábado alternado. Eu começo no primeiro, você no segundo. Se precisar trocar, a gente se fala.

Carlos sentiu um peso saindo do ombro. Não era a solução perfeita, mas era uma solução.

— E as férias? — Beto perguntou.

— A gente vê quando chegar. Mas a ideia é a mesma: divide os dias.

— Fechado.

— Beto.

— Fala.

— Obrigado.

— Ele é nosso pai, Carlos. Não precisa agradecer.

Carlos desligou. O celular na mão, a tela escura. Toby se levantou, foi até ele, encostou o focinho na perna. Carlos abaixou, passou a mão na cabeça do cachorro. O pelo macio, o calor do corpo.

A escala não estava resolvida para sempre. Mas o primeiro passo estava dado.

*Continua em: livreto-021.md — Carlos demite cuidador*