A mesa da cozinha estava coberta de papéis. Luísa tinha impresso uma planilha de custos, o currículo da Márcia, e um contrato simples que ela mesma adaptou de um modelo que achou na internet. Uma caneca de café já frio ao lado do teclado.
Márcia estava sentada na cadeira da frente. A blusa azul clara, a bolsa no colo, as mãos apoiadas sobre a alça. Luísa reparou que ela olhava os papéis com calma, sem pressa.
— Então — Luísa começou. — A gente gostou do seu perfil. Das referências. A Dona Célia falou muito bem.
Márcia sorriu, um sorriso contido.
— Obrigada.
— A última etapa é a gente acertar o financeiro.
Luísa virou a planilha para Márcia ver. Os números estavam escritos em azul, organizados por linha.
— A gente pensou em um valor fixo semanal. R$ 1.200 por semana, de segunda a sexta, das 8h às 17h. Isso cobre o cuidado com o Seu Antônio — alimentação, remédio, companhia, pequenas tarefas da casa.
Márcia olhou os números, os olhos percorrendo a planilha.
— E o transporte? — ela perguntou.
— A gente pode acrescentar um vale-transporte semanal, R$ 60. — Luísa apontou a linha na planilha. — Ou, se a senhora preferir, a gente busca e leva. A casa do Seu Antônio não é longe daqui.
— Buscar e levar resolve.
Luísa anotou no canto do papel. A caneta fez um risco rápido.
— E o pagamento — como a senhora prefere? Dinheiro, depósito, PIX?
— PIX é melhor.
— PIX. Anotei.
Luísa virou a página. O contrato simples. Duas páginas. Ela imprimiu duas vias.
— Esse contrato é básico. Tem as regras de convivência, os horários, as atribuições. E uma cláusula de aviso prévio — se não der certo, a gente combina 15 dias de aviso de ambos os lados. A senhora se sente confortável em ler?
Márcia pegou o contrato. Leu em silêncio. Os olhos dela passavam por cada parágrafo. Luísa esperou, a caneca de café frio na mão.
O som da geladeira vibrando. Toby arranhando a porta da cozinha. Carlos no escritório, batendo tecla.
Márcia levantou os olhos.
— Tá certo. Só uma pergunta: o banho do Seu Antônio. Aqui diz que a cuidadora auxilia no banho. Mas ele é resistente?
Luísa lembrou da última vez que tentou ajudar Seu Antônio com o banho. Ele fechou a porta do banheiro e disse que não precisava.
— Ele é resistente, sim. — Luísa apoiou o queixo na mão. — Mas a gente acha que com paciência e constância, ele acostuma. A senhora tem experiência com isso?
— Já lidei com dois idosos que não queriam ajuda. A chave é não forçar. Deixar o idoso sentir que ainda tem controle.
Luísa ouviu. A resposta fez sentido.
— Então estamos alinhadas.
Márcia estendeu a mão. Luísa apertou.
— Semana que vem a gente começa.
*Continua em: livreto-020.md — Carlos organiza folgas e férias*