Carlos sentou na mesa do escritório em casa. O laptop aberto, o bloco de notas ao lado, a caneta preta mordida na ponta. Ele tinha anotado o número de duas referências que a candidata mandou — uma senhora que ela cuidou por dois anos, e uma filha de outro idoso.
O número no papel parecia um obstáculo. Mas a Luísa tinha ligado ontem. Agora era a vez dele.
Ele pegou o celular. Discou.
— Alô? — uma voz de mulher atendeu, tom cansado.
— Boa tarde. Meu nome é Carlos. A senhora é a Dona Célia? A Márcia — a candidata a cuidadora — colocou a senhora como referência.
— Ah, sim. A Márcia. Cuidou da minha mãe por dois anos. A senhora faleceu mês passado.
Carlos hesitou. Ele tinha o roteiro mental, mas a notícia desarmou ele.
— Meus sentimentos.
— Obrigada. Mas pode perguntar, eu tô aqui pra falar.
Carlos olhou o bloco. As perguntas que ele anotou.
primeira: como era a convivência? segunda: a Márcia era paciente? terceira: ela tomava iniciativa ou precisava de instrução toda hora?
— Como foi a convivência com a Márcia? — ele perguntou.
— Boa. Muito boa, na verdade. Minha mãe era difícil. Teimosa. Acordava de mal humor. A Márcia tinha paciência. Não revidava. Desviava.
— Desviava?
— Sim. Quando minha mãe reclamava, a Márcia mudava de assunto. Oferecia um café. Punha uma música. Ela sabia ler o humor. Isso é raro.
Carlos anotou: *sabe ler humor. Desvia.*
— Ela tomava iniciativa? Ou precisava de instrução?
— Tomava. No primeiro mês eu ensinei a rotina da minha mãe — horário de remédio, alimentação, banho. Depois disso, ela sabia o que fazer. Tinha dias que eu chegava e ela já tinha feito tudo. Até arrumou a cozinha uma vez sem eu pedir.
Carlos anotou. A caneta deslizou no papel.
— Uma última pergunta: o que a senhora achou que podia ser melhor?
Houve uma pausa.
— Olha, a Márcia é boa. Mas ela é reservada. Não fala muito sobre a vida pessoal. Isso pra mim não foi problema, mas algumas famílias podem achar estranho. Ela não vai puxar conversa fiada. Ela vai fazer o trabalho e ficar na dela.
Carlos anotou: *reservada. Não fala muito.*
— Obrigado, Dona Célia. Ajudou muito.
— Espero que dê certo. A Márcia merece uma família boa.
Ele desligou. O silêncio do escritório. Toby latiu na sala. O som do liquidificador na cozinha — Luísa fazendo alguma coisa.
Carlos olhou as anotações. *Sabe ler humor. Toma iniciativa. Reservada.*
Ele pegou o celular de novo. A segunda referência. Respirou e discou.
— Alô?
— Boa tarde. Meu nome é Carlos. A senhora é a Dona Regina? A Márcia colocou a senhora como referência...
A voz saiu mais firme agora. A primeira chamada tinha mostrado o caminho. Ele sabia o que perguntar.
*Continua em: livreto-019.md — Luísa acerta pagamento*