A cortina bege deixava a luz da tarde entrar em fatia. Luísa estava sentada na poltrona de leitura, o celular na mão, o currículo da candidata aberto na tela. Três referências. Dois cursos de cuidadora de idosos. Cinco anos de experiência. Um sorriso na foto do perfil.
O currículo era bom. A candidata parecia ideal. Mas Luísa não conseguia apertar o botão de ligar.
O dedo pairou sobre a tela. Ela colocou o celular virado no colo.
— Ainda não ligou? — Carlos apareceu na porta da sala, uma caneca de café na mão.
— To pensando.
Ele sentou no braço do sofá, perto dela. O café soltava vapor.
— O currículo é bom — ela disse. — Mas fico pensando se a gente precisa mesmo.
Carlos tomou um gole de café, esperou.
— Seu Antônio mora sozinho. A casa dele é grande. Ele já esqueceu o fogão aceso duas vezes esse mês. — Luísa falou olhando para a janela. As palavras saíam como se ela estivesse se convencendo. — A Dona Lúcia não consegue cuidar dele sozinha. A gente trabalha. O Beto trabalha. A Clarinha tá na faculdade.
— Tudo isso é verdade — Carlos disse.
— Então por que parece que a gente tá terceirizando a responsabilidade?
A pergunta ficou no ar. O barulho da torneira pingando na cozinha. O farfalhar da cortina com o vento.
Carlos apoiou a caneca no joelho.
— Porque a gente nunca fez isso antes.
Luísa olhou para ele.
— É a primeira vez que a gente contrata alguém pra cuidar do seu pai. A primeira vez que a gente admite que não dá conta sozinho. — Ele coçou a nuca. — É normal sentir que a gente deveria dar conta.
— Mas a gente não dá.
— Não. E tudo bem.
Luísa ficou em silêncio. O celular ainda virado no colo. Ela lembrou da casa do Seu Antônio — o portão de ferro azul, o quintal com as plantas que ele regava todo dia, a cadeira de balanço na varanda. Ela lembrou da última vez que foi lá. Ele tinha posto açúcar no feijão, achando que era sal. Ela riu na hora. Depois, no carro de volta, o riso sumiu.
— A gente não tá terceirizando — Carlos disse. — A gente tá contratando ajuda. É diferente.
Luísa ergueu o celular, olhou a tela. A foto da candidata, o sorriso no perfil.
— Como você sabe a diferença?
— Porque a gente não vai parar de cuidar. A gente só vai ter alguém pra ajudar.
Ela apertou o botão de ligar. O telefone começou a chamar.
— Alô? — uma voz atendeu.
Luísa respirou fundo.
— Olá, é a Luísa. Do processo seletivo pra cuidadora do Seu Antônio. A senhora tem um tempo pra conversar?
O som da própria voz surpreendeu ela. Firme. Decidida.
Do outro lado da sala, Carlos levantou a caneca, como num brinde.
Ela revirou os olhos, mas sorriu.
A conversa começou.
*Continua em: livreto-018.md — Carlos verifica referências*