"Como orientar alguém que está começando?"

Luísa

A luz da tarde entrava pela janela grande do Estúdio Cria. Poeira dançava nos raios de sol. Na mesa colaborativa, os papéis estavam espalhados — provas de cor, esboços de identidade visual, um calendário rabiscado com caneta vermelha. Luísa estava debruçada sobre o layout de um manual de marca quando a campainha tocou.

— Já vai — ela disse, sem levantar os olhos.

— Tô perto — Camila respondeu da mesa dela, o cabelo curto colorido — hoje estava roxo com mechas rosa — preso num coque frouxo.

Camila abriu a porta. Uma garota magra, de moletom largo e mochila nas costas, estava parada na entrada. Devia ter uns vinte anos. O cabelo preso de qualquer jeito, os óculos de grau um pouco tortos, um sorriso tímido.

— Oi. Eu sou Júlia. Vim para a entrevista de estágio.

— Claro, entra. — Camila abriu caminho. — Luísa, é a candidata.

Luísa levantou os olhos. Enxergou a menina por cima do monitor. O jeito que segurava a alça da mochila com as duas mãos. O olhar percorrendo o estúdio como quem entra num lugar sagrado.

— Senta aqui — Luísa disse, apontando para a cadeira na ponta da mesa. — Trouxe portfólio?

— Trouxe. — Júlia abriu a mochila, tirou uma pasta plástica e uma capa de papel couchê. Colocou na mesa com as duas mãos. — Tá aqui.

Luísa abriu. Olhou em silêncio. Camila se aproximou, olhou por cima do ombro.

Os trabalhos eram crus, dava para ver. Composições desajeitadas, tipografia hesitante, uma paleta de cores que não conversava direito. Mas tinha coisa ali. Uma sensibilidade nos encaixes. Uma ousadia nos conceitos. Um cartaz de um evento cultural que, apesar dos erros técnicos, passava uma energia que não se ensina.

Luísa virou a última página. Fechou a pasta.

— O que você quer aprender aqui?

Júlia hesitou.

— Tudo. Eu estudei design num curso técnico. Sei usar as ferramentas, mas não sei... pensar. Queria entender como as pessoas chegam nas soluções. Como vocês fazem o que fazem.

Luísa cruzou os braços. Inclinou a cabeça, o gesto dela quando estava processando.

— Você já fez algum teste prático?

— Não.

— Você quer fazer agora?

Júlia respirou fundo.

— Quero. Mas também queria saber se posso só acompanhar um pouco antes. Ver como vocês trabalham. Às vezes eu aprendo mais olhando do que fazendo.

Luísa e Camila trocaram um olhar.

— Espera aqui um minuto — Luísa disse.

Ela se levantou, fez um sinal para Camila com a cabeça. As duas foram para o fundo do estúdio, perto da mesa de reunião, longe o bastante para Júlia não ouvir.

— O que você achou? — Luísa perguntou em voz baixa.

— Crua. Mas tem olho. — Camila cruzou os braços. — O cartaz do festival é feio, mas a ideia é boa. Ela só não sabe executar ainda.

— Exato. — Luísa passou a mão no cabelo. — Ela não precisa de um teste. Ela precisa de orientação. Se a gente joga um brief na mesa dela agora, ela vai travar. Mas se alguém mostrar o caminho...

— Você quer pegar ela?

Luísa balançou a cabeça.

— Não eu. Você.

Camila ergueu uma sobrancelha.

— Eu?

— Você é melhor nisso do que eu. — Luísa apoiou o quadril na borda da mesa. — Você tem paciência pra explicar o básico. Eu já quero que a pessoa saia entregando. Você ensina melhor.

— Lu, a gente tem entrega semana que vem.

— Eu seguro a entrega. Você fica com ela. Duas horas por dia, durante o período de experiência. Mostra o fluxo, explica os porquês. Se depois de um mês ela não deslanchar, a gente repensa.

Camila ficou em silêncio. Olhou para Júlia, que estava sentada na ponta da cadeira, mexendo no celular sem realmente olhar para a tela, os olhos percorrendo o estúdio a cada dois segundos.

— Ela tá nervosa — Camila disse.

— Eu sei. Eu também estava, na primeira vez que alguém me deu uma chance.

Camila virou para Luísa. Os óculos coloridos — armação azul turquesa — subiram quando ela ajustou o nariz.

— Tá bom. Fechado.

Luísa sorriu. Um sorriso que começou nos olhos antes de chegar na boca.

— Obrigada.

— Para de agradecer. É o estúdio. A gente investe em quem tem potencial.

— Eu sei. Mas é bom quando a sócia topa na hora.

Camila deu um tapinha no ombro de Luísa e voltou para perto da mesa.

— Júlia — ela chamou. — Vem cá.

A menina levantou rápido, quase derrubando a mochila. Aproximou.

— A gente vai fazer o seguinte — Camila disse. — Você vai passar o período de experiência comigo. Duas horas por dia, de segunda a quinta. Eu vou te mostrar como a gente pensa aqui. No final do mês, a gente senta e vê como foi. Combinado?

Júlia abriu um sorriso largo. O primeiro sorriso verdadeiro desde que entrou.

— Combinado.

Luísa sentou de volta na cadeira. Olhou os papéis na mesa, o layout do manual de marca. Mas, por um momento, não enxergou o trabalho. Enxergou a cena: Camila já puxando uma cadeira para Júlia, mostrando um arquivo no monitor, explicando alguma coisa com a mão no ar.

Ela lembrou da primeira vez que alguém fez isso por ela. Uma professora de design, no segundo semestre da faculdade. Não deu respostas. Deu direção.

Agora era ela quem passava adiante.

Luísa pegou a caneca — a de "BOSS" que o Ricardo tinha dado — e tomou um gole de café. O café estava frio. Não importava.

Lá no fundo do estúdio, Júlia ria de alguma coisa que a Camila tinha dito.

*Fim*