Seis meses. Foram seis meses de cafés esporádicos — um aqui, outro ali, nunca na agenda fixa, sempre no fio do bigode. Às vezes na máquina do sétimo andar, outras num copo d'água no corredor, uma vez numa quarta à tarde em que os dois ficaram até tarde e Ricardo chamou Ricardo para dividir uma pizza de mussarela na mesa da sala dele.
Ricardo aprendeu coisas que não estavam em nenhum manual. Aprendeu a ler o mapa de entregas como quem lê uma partitura. Aprendeu que o chefe que mais aperta é o que mais ensina. Aprendeu que elogio de Ricardo valia por dez de qualquer outro.
E, na manhã de terça-feira, ele descobriu que tinha sido promovido.
A carta do RH veio por e-mail, às nove e quinze. Ricardo leu três vezes antes de acreditar. Analista de Operações Sênior. Aumento de vinte e três por cento. Assinatura do diretor e, no campo de cópia, o nome de Ricardo.
Ele levantou da mesa. Atravessou o open space. As cabeças dos colegas viraram — ninguém sabia ainda, mas sentiam que alguma coisa tinha acontecido. Ricardo bateu na porta da sala de Ricardo.
O gerente estava ao telefone. Levantou um dedo, pedindo um minuto. Ricardo esperou do lado de fora, o coração batendo.
Ricardo desligou.
— Pode entrar.
Ricardo entrou. Fechou a porta.
— Li o e-mail.
— Li também. — Ricardo inclinou a cabeça. — Mereceu.
— Eu queria agradecer. O senhor... — Ricardo parou. A garganta apertou. — O senhor me ensinou muito. Mais do que qualquer curso que eu fiz.
Ricardo ajustou os óculos. Não disse nada. Só acenou com a cabeça uma vez.
— Se cuida — ele disse. — Agora a responsabilidade é maior.
— Eu sei.
— Sei que sabe.
Houve um silêncio — não incômodo, dos bons. Ricardo pegou a caneca preta na mesa. A caneca velha, com uma rachadura na borda que ele recusava trocar. Bebeu o resto do café e colocou de volta.
— Vai ter discurso na reunião geral? — perguntou.
— Falaram que sim.
— Fala a verdade. Não precisa florear.
Ricardo assentiu. Saiu da sala flutuando.