A luz do abajur no criado-mudo acendeu o quarto num tom amarelado. Eram onze e vinte da noite. Ricardo estava de pé na frente do espelho do guarda-roupa, de meias, a camisa azul claro desabotoada no colarinho. Ele respirou fundo e olhou para o próprio reflexo.
— Ricardo... — Começou. Parou. Sacudiu a cabeça.
— Bom dia, Ricardo. Tudo bem? Eu queria... Não.
Ele passou a mão na nuca. O quarto estava silencioso — Luísa já dormia, a respiração regular vinda da cama. Toby, deitado no tapete, ergueu uma orelha, olhou para ele, e baixou de novo.
Ricardo endireitou a postura. Tentou de novo.
— Ricardo, o senhor tem um tempinho? Eu queria conversar sobre uma coisa.
Pausa. Ajeitou o colarinho.
— Ricardo, eu admiro muito o seu trabalho e queria saber se o senhor topa...
— Não, muito formal. — Ele falou sozinho, em voz baixa. — Menos ensaiado. Mais natural.
Respirou. Fitou os próprios olhos no espelho.
— Ricardo, o senhor topa tomar um café comigo um dia? Queria ouvir sua opinião sobre uma coisa.
As palavras saíram simples. Diretas. Pareciam certas.
— Pronto. É isso.
Ele desabotoou de vez a camisa, pendurou no cabide e deitou na cama. Ficou olhando o teto. No dia seguinte, no escritório, ele não encontrou coragem. Nem no outro. Nem na semana inteira.