"Como pedir ao orientador para revisar o currículo Lattes?"

Luísa

O notebook estava aberto na mesa do escritório. A luz azulada batia no rosto de Pedro, que olhava para a tela como quem olha para uma parede.

— Eu não sei nem por onde começar — ele disse.

Luísa parou na porta com uma caneca de chá nas mãos. O vapor subia em espiral, sumindo no ar do fim de tarde. O sol já tinha virado para o outro lado do prédio, e o escritório estava na penumbra, iluminado só pelo abajur no canto e pela tela do notebook.

— Começa pelo começo — ela disse, entrando. — Dados pessoais.

— Isso eu sei. — Pedro mexeu na cadeira. — É depois que complica.

Luísa puxou a cadeira do lado e sentou. A madeira rangeu. Ela colocou a caneca sobre um descanso de cortiça — um quadrado azul que Ricardo tinha ganhado não lembrava de onde.

— Vamos ver.

Pedro virou a tela para ela. A página do CNPq estava aberta. A barra de progresso do currículo marcava 12%. Ele tinha preenchido o nome, a cidade, o e-mail. Depois disso, nada.

— Formação — Luísa apontou. — Ensino médio completo. Curso superior em andamento. É o que você tem.

— Mas eu não publiquei nada. Não tenho artigo. Não tenho projeto.

— E não precisa ter ainda. O Lattes é um retrato do que você fez até agora, não do que você vai fazer. Se tá no primeiro ano de faculdade, o retrato é esse: ensino médio, curso superior começando, e uma iniciação científica em andamento. Mostra que você começou.

Pedro apoiou o queixo na mão.

— Parece tão pouco.

— Parece porque você tá comparando com currículo de professor que tem trinta anos de carreira. Compara com você mesmo. E você tá começando.

Ela tomou um gole de chá. O cheiro de camomila subiu.

— Onde você quer chegar com a iniciação?

— É na área de astrofísica. O professor falou que a gente vai estudar dados do telescópio tal. Eu não entendi metade do que ele falou, mas parece legal.

— Então bota isso no resumo. \"Iniciação científica em andamento na área de astrofísica, com foco em dados de sensoriamento remoto.\" Não precisa ser técnico. Precisa mostrar que você sabe o que tá fazendo.

Pedro começou a digitar. Os dedos hesitavam entre uma letra e outra.

— Assim?

Luísa leu. O texto estava claro, direto.

— Tira \"estudo avançado\" — ela disse. — Você não estudou nada avançado ainda. Colega de faculdade que lê isso vai achar que você é o próximo Stephen Hawking.

Pedro riu.

— Bota \"iniciação científica em andamento\". É verdade.

Ele apagou, reescreveu.

— Pronto.

— Pronto.

Luísa tomou mais um gole. Toby apareceu na porta do escritório, arranhou o batente com a pata, e deitou no tapete, a coleira vermelha tilintando contra o chão.

— Agora — ela disse — a parte que você mais odeia.

— O quê?

— Mandar pro orientador revisar.

Pedro parou de digitar. A mão ficou suspensa sobre o teclado.

— Eu ia fazer isso amanhã.

— Não vai. Vai fazer agora.

— Mas o currículo tá incompleto. Falta coisa. Falta...

— Falta o olhar de quem entende do assunto. Pedro, não existe currículo pronto na primeira versão. Existe rascunho. O rascunho vai pro orientador. Ele marca, sugere, corta. Você ajusta. Volta. Até ficar bom. Não é um teste. É o processo.

Ele passou a mão no cabelo. O gesto era do Ricardo. Exatamente o mesmo.

— Eu não sei o que escrever no e-mail.

— Escreve o que você falaria pra ele pessoalmente.

— Tá, mas se eu escrever do jeito que eu falo, fica \"e aí, prof, dá uma olhada nisso aqui\". Muito informal.

— Você sabe que não é isso.

Pedro ficou calado.

— Escreve — Luísa disse. — Depois a gente ajusta.

Ele abriu o e-mail. O cursor piscou no campo de texto.

— \"Prezado professor\" — ele começou a digitar em voz alta. — \"Estou montando meu currículo Lattes para a iniciação científica. Preenchi as principais informações, mas gostaria que o senhor revisasse antes de eu finalizar. Se puder sugerir ajustes, agradeço.\"

Ele parou. Leu de novo.

— Tá muito formal?

— Tá claro, respeitoso, e direto. Não precisa de mais nada.

— Não boto \"desde já agradeço\"?

— Se quiser. Mas não precisa. O e-mail já agradece no final.

Pedro leu mais uma vez. Mexeu numa vírgula. Leu de novo.

— Manda — Luísa disse.

— E se ele achar que tá ruim?

— Ele vai sugerir melhoria. É o trabalho dele. Se ele não sugerisse nada, aí sim era preocupante — significava que ele não leu.

Pedro respirou fundo. Clicou em enviar.

O som do e-mail partindo foi um whoosh seco.

Ele fechou o notebook e se jogou para trás na cadeira.

— Pronto.

— Pronto.

Toby levantou a cabeça, olhou para os dois, e bocejou. As orelhas balançaram.

— Posso te perguntar uma coisa? — Pedro disse.

— Pode.

— Quantas vezes você já mandou um currículo ou portfólio e ficou com esse mesmo medo?

Luísa apoiou a caneca no descanso de cortiça. O chá já estava morno.

— Todas as vezes. Até hoje. Ano passado mesmo, mandei um orçamento para um cliente grande e fiquei trinta minutos relendo antes de apertar enviar.

— Mentira.

— Verdade. E eu tenho uma empresa.

Pedro riu. Um riso baixo, de quem acabou de descobrir que não está sozinho no medo.

— Não é que eu tenha medo do professor. É que parece que tudo que eu mando tá incompleto. Que falta alguma coisa que todo mundo sabe menos eu.

— Isso não passa. Mas você aprende a conviver. E aprende que pedir revisão não é humilhação. É inteligência. Ninguém nasce sabendo preencher Lattes. Se você falar com qualquer professor, ele vai te contar que o primeiro currículo dele era um desastre.

— Jura?

— Imagine um currículo escrito à mão, com caneta azul, cheio de rasura. Era o Lattes do seu orientador.

Pedro sorriu.

— Vou deixar você em paz — Luísa disse, levantando. Pegou a caneca. — Quando ele responder, você me mostra. A gente ajusta junto.

— Tá bom.

Ela saiu do escritório. Antes de fechar a porta, olhou para trás. Pedro tinha aberto o notebook de novo. A luz da tela iluminava o rosto dele. Ele estava lendo o currículo, mexendo em alguma coisa, os olhos concentrados.

Toby levantou, andou até a porta, e deitou no batente. A coleira vermelha brilhou na penumbra.

Luísa fechou a porta devagar. O estalo da maçaneta foi o único som.

*Continua em: livreto-014.md — A mesa do chefe*