"Como pedir à ex-professora para revisar o portfólio acadêmico?"

Luísa

O ar condicionado do Estúdio Cria fazia um barulho suave de motor, um zumbido constante que Luísa já nem percebia mais. Ela estava diante do monitor, ajustando o kerning de uma fonte para o logotipo de uma cafeteria nova, quando ouviu um movimento perto da porta.

Carla estava ali. Parada. Os dedos enrolando a ponta da blusa branca.

— Luísa? Tem um minuto?

Luísa girou na cadeira. O blazer vermelho bordô rangeu levemente.

— Claro. Entra.

Carla deu dois passos para dentro do escritório. O sol da tarde entrava pela janela, um retângulo de luz no piso de madeira. A estagiária parou na borda da luz, como se não quisesse atravessar.

— É sobre o portfólio — ela disse. — A professora Maristela, da faculdade. Ela era minha orientadora de TCC. Eu queria mandar o portfólio atualizado pra ela dar uma olhada, ver se tá bom pra candidatar àquela vaga de design editorial.

— E qual o problema?

Carla desviou o olhar.

— Eu não sei como pedir. Fico com vergonha. Ela deve estar ocupada, não deve ter tempo de ficar revisando portfólio de ex-aluna...

Luísa inclinou a cabeça. Conhecia aquele tom. Aquele receio de incomodar. A voz na cabeça dizendo que o problema da gente não é urgente o suficiente para ocupar o tempo dos outros.

— Senta aqui — Luísa puxou a cadeira ao lado da mesa.

Carla sentou. O couro rangeu.

— Você lembra o nome dela, a matéria que ela dava, o que você aprendeu com ela?

— Lembro. Tipografia Avançada. Ela foi minha orientadora no TCC. Foi ela que me ensinou a pensar grid.

— Então ela se importa com você. Professora que orienta TCC não esquece aluno. — Luísa apoiou o cotovelo na mesa. — O que você quer mandar pra ela?

Carla abriu o notebook que estava debaixo do braço. Mostrou a tela. Uma pasta cheia de arquivos — PDFs, imagens, alguns projetos organizados.

— É isso. Meu portfólio da faculdade, mais uns trabalhos que fiz depois. Mas tá bagunçado. Eu queria que ela visse antes de eu enviar pra vaga.

— E você tá com medo de ela achar que tá ruim?

— Não. É que... — Carla parou. — É que eu não quero parecer que tô usando ela. Que só lembrei da professora porque preciso de algo.

Luísa sorriu. Um sorriso pequeno, que não veio dos dentes, mas dos olhos.

— Eu passei por isso. Na mesma situação.

Carla ergueu o olhar.

— Sério?

— Terceiro ano de faculdade. Eu tinha que mandar um portfólio pra concorrer a uma vaga de estágio num escritório de design. Passei três dias montando tudo na frente do computador. Quando ficou pronto, travei. Não conseguia apertar o enviar.

— Por quê?

— Porque eu precisava que uma professora revisasse antes. A mesma que me deu aula de Identidade Visual. Eu fiquei dias ensaiando o e-mail na cabeça. \"Professora, tudo bem?\", \"Professora, desculpa incomodar\", \"Se não puder, tudo bem também\". No fim, quem me ajudou foi minha sócia, na época uma amiga da sala. Ela sentou do meu lado e falou: \"Escreve o e-mail como se você estivesse falando com ela pessoalmente. Sem rodeio. Sem pedido de desculpas antes do pedido.\"

Carla ouvia, os olhos fixos.

— O que você escreveu?

— \"Professora, montei meu portfólio para concorrer a uma vaga de estágio. A senhora foi quem mais me ensinou sobre identidade visual na faculdade. Se puder dar uma olhada e apontar o que posso melhorar, fico muito grata.\" Ponto. Não precisei de três parágrafos.

— E ela respondeu?

— Respondeu no mesmo dia. Com uma lista de seis ajustes. Eu passei a noite inteira refazendo cada um. No dia seguinte, mandei o portfólio ajustado. Consegui o estágio.

Carla ficou quieta. O barulho do ar condicionado preencheu o silêncio.

— Então é isso? — ela perguntou. — Só mandar o e-mail reto?

— Reto, claro, respeitoso. E com contexto. Explica o que você quer, por que está pedindo pra ela, e o que você fez com o que aprendeu. Professora gosta de saber que o aluno usou o que ensinou.

Carla abriu o bloco de notas no celular. Começou a escrever. Luísa olhou para a tela inclinada, leu as primeiras palavras.

— Tira o \"desculpa incomodar\" — Luísa disse.

Carla apagou.

— Tira o \"se não der, tudo bem\".

Carla apagou.

— Coloca no final: \"Agradeço desde já pela atenção.\"

Carla digitou. Leu em voz alta.

— \"Professora Maristela, espero que a senhora esteja bem. Estou montando meu portfólio para concorrer a uma vaga de design editorial e lembrei da senhora como referência, já que foi minha orientadora de TCC e quem me ensinou tipografia aplicada. Estou anexando os trabalhos que fiz até agora. Se a senhora puder dar uma olhada e sugerir melhorias, agradeço muito. Agradeço desde já pela atenção. Carla.\"

Luísa ouviu. O texto era exatamente o que precisava ser.

— Manda.

Carla olhou para o celular. O polegar pairou sobre a tela.

— Agora?

— Agora. Se você esperar, amanhã vai reescrever dez vezes. Manda.

Carla apertou o envio. O som de quem empurra um barco para dentro d'água. Ela apoiou o celular na mesa e soltou o ar.

— Pronto.

— Pronto.

Carla sorriu. Um sorriso aliviado, que subiu dos ombros.

— Obrigada, Luísa.

Luísa apoiou a mão no ombro de Carla. A palma sentiu o calor do corpo, o tecido fino da blusa branca.

— Daqui a uns anos você vai fazer isso por algum estagiário novo.

Carla riu.

— Tomara.

— Tomara.

Luísa tirou a mão do ombro e girou a cadeira de volta para o monitor. O blazer vermelho bordô pegou a luz da janela. Ela ouviu os passos de Carla saindo do escritório, mais leves do que quando entraram.

Ficou olhando para a tela. O logotipo da cafeteria esperava. Ela ajustou um ponto de ancoragem e pensou na professora de Identidade Visual, que respondera o e-mail dela naquela noite, há tantos anos. Nunca tinha agradecido direito. Pegou o celular, abriu a caixa de entrada, e começou a digitar.

*Continua em: livreto-013.md — O Lattes que Pedro não sabia escrever*