O barulho começou na terça-feira, na volta de uma visita à obra do cliente em Alphaville. Um tum-tum-tum ritmado, baixo, que aparecia acima dos 60 km/h e ficava mais claro nas curvas. Carlos abaixou o vidro para ouvir melhor — o vento entrou quente, mas o barulho continuou. Ele apertou o volante, sentiu uma vibração leve no banco. O asfalto liso da Marginal escorria debaixo do carro, e o som insistia.
Carro da empresa. Um hatch branco, 2020, com 78 mil quilômetros rodados. Três anos de uso intenso — obras, clientes, fornecedores, idas e vindas entre escritório e canteiro. Os pneus eram os originais de fábrica. Carlos já tinha notado que a banda estava baixa nas laterais, principalmente no dianteiro direito. Na semana passada, o almoxarife comentou:
— Esse carro tá precisando de um amor, hein, Carlos.
Ele riu sem graça. "Amor" era eufemismo. O que o carro precisava era de quatro pneus novos, uma revisão nos freios e uma troca de óleo. Mas pedir pneu novo para o Ricardo era uma conversa que Carlos vinha adiando.
Ricardo era o gestor direto dele. Homem direto, de números, que começava as reuniões de segunda-feira com "Vamos aos fatos" e terminava com "Me mande o relatório até quarta". Não era mau — era justo. Mas tinha um olhar de quem media cada centavo gasto. A logística vivia no fio da navalha entre orçamento e necessidade, e Carlos sabia que pedir pneu novo soava como despesa. E despesa, para Ricardo, era sempre suspeita até prova em contrário.
Carlos passou o resto da semana fazendo o que todo funcionário faz quando não quer pedir algo: tentou resolver sozinho. Calibrou os pneus na sexta-feira, torcendo para a banda baixa ser "impressão". Na segunda, o barulho continuava. Na terça, ele pediu o carro emprestado pra "uma volta rápida" e parou numa borracharia perto do escritório. O borracheiro, um senhor de óculos grosso e mãos de graxa, olhou o dianteiro direito e cuspiu no chão:
— Amigo, isso aqui já era. Tem lona aparecendo do lado de dentro. O senhor roda mais 200 km nisso e ele pode abrir na estrada.
Carlos agradeceu, pagou a calibragem, e voltou pro escritório com o barulho na cabeça.
Na quarta-feira, Ricardo apareceu na sala dele, a pasta embaixo do braço, os óculos redondos subindo no nariz.
— Carlos, amanhã você vai na Prefeitura de Barueri pegar a documentação da obra nova. Pode pegar o carro da empresa.
— Tá — Carlos respondeu. A boca disse sim. A cabeça disse: *com esse pneu?*
O dia seguinte amanheceu cinzento. Carlos pegou o hatch branco, fez o trajeto de 40 minutos até Barueri. O barulho estava pior — mais alto, mais vibrante, como se o carro estivesse tentando dizer alguma coisa. Na volta, numa descida da Rodovia Castello Branco, ele sentiu o volante puxar ligeiramente para a direita. Corrigiu. O carro balançou um pouco antes de estabilizar. O coração disparou.
Ele chegou no escritório, estacionou, e ficou sentado dentro do carro por um minuto. O motor desligado, o silêncio agora completo — um silêncio que denunciava o quanto o barulho estava alto antes. Ele bateu a mão no volante. Suspirou. Pegou a bolsa e subiu.
No fim do expediente, ele estava na mesa Redonda, o notebook aberto na frente, quando Luísa ligou.
— Tudo bem? Tá com voz de quem comeu chumbo.
— Tô bem. Só o carro da empresa.
— Que carro?
— Aquele hatch branco. Os pneus estão no osso. Hoje quase perdi o controle na Castello.
— E você não falou com o Ricardo?
— Ainda.
— Por quê?
Carlos encostou a cadeira. Apoiou o cotovelo na mesa.
— Porque parece que eu tô pedindo favor. Ou que não cuidei do carro. Sei lá.
— Você cuidou. Você é o único que cuida. — A voz dela veio firme, mas carinhosa. — Se o pneu furar na estrada, quem vai se machucar é você. O Ricardo não vai estar lá pra assumir a responsabilidade. Você pede porque é o certo. Não porque é confortável.
Ele passou a mão no rosto. A barba por fazer arranhou a palma.
— É.
— Amanhã você fala. Promete?
— Prometo.
Ela desligou. Carlos ficou olhando para a tela do notebook, o cursor piscando numa planilha vazia.