"Como vender um veículo usado?"

Carlos

A manhã de sábado começou com um balde, um pano, e um sol fraco de inverno. Carlos desceu com Toby na coleira e passou meia hora lavando o Uno. Sabão neutro, pano de microfibra, a mangueira no volume certo. Ele nunca tinha lavado o carro com tanto cuidado. Parecia que estava arrumando o defunto para o velório.

Toby ficou deitado na calçada, o focinho entre as patas, observando. De vez em quando, ele abanava o rabo quando Carlos passava perto.

— Tá bonito? — Carlos perguntou, passando o pano no parachoque traseiro.

Toby latiu uma vez. Carlos levou a sério.

Quando terminou, o Uno parecia outro. A pintura não estava boa — tinha marcas de sol no capô, um arranhado na lateral, a tampa do porta-malas com uma mancha de ferrugem que ele escondeu com uma camada fina de massa de polir. Mas limpo, com os pneus pretinhos, o vidro brilhando, o carro tinha dignidade.

Ele subiu, pegou o celular e saiu para tirar fotos. Fez umas doze. De frente, de lado, de trás, do interior, do painel, do porta-malas vazio. A que ficou melhor foi a de três quartos, com a luz da manhã batendo no capô.

Sentou na sala, abriu o site de classificados. Leu outros anúncios de Uno 2010. Preços entre oito e treze mil. O dele, com os problemas mecânicos que ele pretendia contar, não valia isso. O Seu Roberto tinha sugerido anunciar por cinco e aceitar uns três e meio.

Carlos pensou. Digitou o título: "Uno 2010 — 187 mil km — vendo no estado — ideal para peças ou pequenos reparos".

Colocou o preço: R$ 5.500. Escreveu a descrição: os pontos positivos (bateria nova, pneus traseiros bons, documentação em dia) e as ressalvas (problema na junta do cabeçote, suspensão dianteira, sugestão de reboque para o comprador). Finalizou com "aceito propostas".

Publicou.

No mesmo minuto, o celular vibrou. Uma mensagem: "Ainda tem o Uno?" Dois minutos depois, outra: "Troca por uma moto?" Cinco minutos, outra: "Quanto é o mínimo?"

Carlos respondeu a primeira: "Sim, está disponível." A segunda: "Não, obrigado." A terceira ficou sem resposta — ele não sabia o que responder.

Até o meio-dia, tinham chegado oito mensagens. Gente oferecendo troca por celular, por videogame, por uma dívida de jogo. Um cara ofereceu três mil e disse que buscava ainda hoje. Carlos respondeu: "Dou retorno até amanhã. Tenho outros interessados."

Não tinha. Mas parecia profissional.