"Como decidir entre consertar ou trocar o carro?"

Carlos

O carro tossiu. Um som seco, metálico, vindo de baixo do capô. Carlos apertou a embreagem e engatou a primeira. O carro gemeu, hesitou, e desistiu. O motor apagou.

— Não — ele disse, baixinho. — Agora não.

Virou a chave de novo. O motor fez "tchi-tchi-tchi" e nada. Na terceira tentativa, um arranco, uma tremedeira, e o ronco irregular de quem acordou do lado errado da cama. Carlos soltou o ar, passou a mão no cabelo. O carro estava ligado, mas o som não era normal. Era o som de alguma coisa prestes a quebrar.

Ele desligou. Ficou parado no estacionamento do prédio, as mãos no volante, olhando o painel. 187 mil quilômetros. O carro era um Uno 2010 que ele tinha comprado do tio fazia seis anos. Veio com o adesivo do time na janela de trás e um cheiro de cigarro velho que demorou três meses para sair. Fora confiável por muito tempo. Mas os últimos meses tinham sido uma sequência de visitas ao mecânico: o carburador (que nem era carburador, era injeção — o mecânico explicou, Carlos fingiu que entendeu), o radiador, a correia, um barulho na suspensão que aparecia e sumia igual fantasma.

Agora o carro tinha tossido.

Carlos pegou o celular, ligou para o mecânico.

— Seu Roberto? É o Carlos. O carro não quer pegar direito. Tá falhando. Posso levar hoje?

— Pode trazer, mas vou estar com a agenda cheia até mais tarde. Deixa aqui que eu dou uma olhada quando der.

Carlos olhou no relógio. Nove e vinte. Ia se atrasar para o trabalho.

— Tá bom. Deixo a chave com o rapaz da oficina.

Ele desceu, abriu o capô. Não adiantava — ele não entendia nada do que via lá dentro. Um monte de peças de metal, borrachas, cabos. Parecia o interior de um organismo doente. Ele fechou o capô, pegou a mochila, trancou o carro e foi a pé até o ponto de ônibus.

No ônibus, ele fez a conta de cabeça. Nos últimos três meses, tinha gasto dois mil e duzentos reais em reparos. O carro não valia muito mais do que isso. Ele sabia porque tinha pesquisado na internet, numa noite insone, depois de pagar setecentos reais num serviço de suspensão. "Quanto vale um Uno 2010 com 187 mil km?" A resposta apareceu: entre oito e onze mil, dependendo do estado de conservação. O estado de conservação do carro dele era "só Deus sabe".

Ele chegou no trabalho, passou o dia distraído. Ricardo, o chefe, chamou para uma reunião às três. Carlos ouviu metade do que ele disse. A outra metade estava no estacionamento da oficina, no Uno tossindo.

Às cinco e quarenta, ele ligou para o Seu Roberto.

— E aí, seu Roberto? Descobriu o que é?

— Descobri, meu filho. Senta que vou falar.

Carlos sentou na mesa do escritório, o coração apertado.

— O motor tá com problema na junta do cabeçote. Vazamento de óleo e água misturando. Além disso, a suspensão dianteira tá condenada — o que eu falei mês passado, você lembrou de trocar?

— Ainda não.

— Pois é. O sistema de arrefecimento também. E os pneus tão no fim. O estepe tá careca. Resumindo: o carro precisa de uns cinco mil de serviço pra ficar minimamente seguro. Se quiser deixar bom mesmo, uns sete.

Carlos ficou em silêncio. O número ecoou.

— Cinco mil?

— É. E olha que eu não to querendo te empurrar serviço. Se fosse meu carro, eu pensaria duas vezes antes de investir. O Uno já deu o que tinha que dar.

— Mas ele roda.

— Ele roda manco, Carlos. Mais um mês e a junta vai de vez, aí o motor funde. Aí o conserto é mais caro que o carro.

Carlos passou a mão na nuca.

— O que o senhor faria, seu Roberto?

O mecânico suspirou do outro lado da linha.

— Olha, eu não vou te falar pra comprar carro zero porque sei como é orçamento. Mas se eu fosse você, juntava uma grana e trocava por um modelo mais novo. Uns quatro, cinco anos de idade. Financiava o que faltasse. O Uno já era. Desculpa a franqueza.

— Não, tudo bem. Prefiro a verdade.

— Então é isso. O carro tá aqui quando quiser buscar. Mas não recomendo rodar muito com ele não. Corre o risco de não voltar.

Carlos agradeceu, desligou, e ficou olhando para a tela do computador. O fundo de tela era uma foto de Luísa e Pedro no parque, do ano passado. Ele lembrou que tinha levado os dois naquele passeio. No Uno. O carro tinha dado um solavanco no meio do caminho, mas chegou.

Ele guardou o material na mochila e foi para casa de ônibus de novo.