Na semana seguinte, Carlos passou todos os dias na casa.
Chegava cedo, antes das nove. Abria as janelas para entrar sol. Separava as roupas em pilhas: doação, lixo, guardar. Encontrou cadernos antigos, cartas que a mãe guardava numa caixa de sapatos, discos de vinil embrulhados em jornal. Cada objeto vinha com uma história. Cada história doía um pouco.
Luísa foi buscá-lo no terceiro dia. Ele estava no quintal, sentado no chão perto do pé de manga, a camisa suja de terra.
— Carlos — ela chamou.
Ele não respondeu de imediato. Ela sentou ao lado dele.
— Você não tem falado. Chega em casa de noite e senta no sofá. Fica olhando o teto. Toma banho, come qualquer coisa e dorme. Mas toda manhã você está aqui de novo.
— Estou me despedindo — ele disse.
— Eu sei. Mas está me assustando.
— Mais uma semana. Depois passa.
Ela ficou em silêncio. Depois perguntou:
— E depois vem a venda. Depois vem a divisão do dinheiro. Depois vem a vida. E aí? O que sobra para você?
Carlos não soube responder.
No sábado, ele encontrou uma fotografia no fundo de uma gaveta do guarda-roupa dos pais. Beto e ele no quintal da casa velha, em 1994. Carlos devia ter uns oito anos. Beto uns quinze. Estavam os dois na mangueira, a água espirrando para todo lado. A mãe tirou a foto da janela da cozinha — dava para ver a silhueta dela no vidro.
No verso, a letra do pai:
*Os dois. A casa. O verão que não acaba.*
Carlos ficou parado, segurando a fotografia. A mão tremia. Ele sentou na cama dos pais — a cama que ainda estava lá, porque ele não tinha conseguido desmontar — e deixou o choro vir. Sozinho, no quarto vazio.