"Como combinar pagamento de faculdade com os filhos?"

Carlos

A planilha ainda estava na gaveta do escritório, dobrada no mesmo lugar onde Carlos tinha guardado havia um ano e três meses. As marcas de caneta azul de Pedro ainda legíveis — o "R$ 100.000" rabiscado na margem, o traço embaixo de "Federal", o ponto de interrogação ao lado de "Monte Verde".

Agora aquele ponto de interrogação tinha virado um cheque.

Pedro não tinha passado na Federal. Passou na Monte Verde de novo — segunda chamada, com bolsa de 35% por desempenho no Enem. E resolveu entrar. Carlos não teve coragem de dizer não. Afinal, um ano antes, tinha sido ele quem dissera "a gente dá um jeito".

O jeito estava na fatura que chegou na semana passada.

Carlos estava na cozinha quando o carteiro passou. Viu o envelope branco no escaninho, o logotipo da Monte Verde no canto superior esquerdo. Abriu com o dedo, rasgando a borda, os olhos percorrendo os valores como quem confere uma sentença.

Mensalidade: R$ 3.178,50 (com desconto).

Material do semestre: R$ 890,00.

Taxa de laboratório: R$ 240,00.

Seguro acadêmico: R$ 85,00.

Total: R$ 4.393,50.

Carlos encostou no balcão da cozinha. O ar entrou curto, como se o peito tivesse encolhido. Leu de novo. Depois de novo. O número não mudou.

— Tá tudo bem? — a Luísa entrou com uma sacola de compras, parou ao ver a expressão dele.

— É a mensalidade do Pedro.

Ela largou a sacola, secou a mão no avental, pegou o boleto. Leu em silêncio. A única coisa que se ouvia era o gotejar da torneira. Quando terminou, colocou o papel sobre a mesa, ao lado da fruteira.

— Vai caber?

Carlos já tinha feito a conta. Sabia que não. O aluguel tinha subido. O carro precisava de revisão. O plano de saúde havia reajustado. O que sobrava no fim do mês era menos do que aquela fatura.

— A gente se vira — ele disse.

A Luísa inclinou a cabeça, o olhar fixo nele.

— Você já se vira há três meses, Carlos. Não está sobrando.

— Eu dou um jeito.

— Sozinho? — ela puxou uma cadeira, sentou. — Você já está fazendo hora extra todo sábado. Chega em casa com dor de cabeça. O Pedro percebe. A única pessoa que acha que está enganando alguém é você.

Carlos passou a mão no rosto, a barba por fazer arranhando a palma.

— Eu não quero que ele sinta o peso disso agora. Ele acabou de entrar.

— E daqui a três meses você vai estar mais estressado, e ele vai sentir o peso do clima em casa sem saber de onde vem. — Ela se inclinou. — Mostra pra ele. O plano que vocês combinaram um ano atrás. Ele participou daquele plano.

Ela foi até o escritório sem esperar resposta. Abriu a gaveta, puxou a planilha velha. Voltou com o papel amassado na mão, dobradura depois de dobradura, as bordas gastas.

— Olha — ela estendeu a planilha. — Vocês dois fizeram isso juntos. Mostra pra ele.

Carlos pegou o papel. O cem mil rabiscado. A letra de Pedro.

Naquela noite, depois do jantar, ele chamou o filho para a sala. A Luísa ficou na cozinha, o barulho de pratos e água corrente preenchendo o fundo.

Pedro veio desconfiado, a mochila ainda pendurada num ombro, os olhos meio inchados de quem tinha passado a tarde estudando.

— Senta aqui.

— O que foi, pai?

— Senta.

Pedro largou a mochila no chão. Sentou na poltrona — a mesma de um ano atrás, o couro rangendo do mesmo jeito. Carlos puxou a cadeira da mesa de centro, colocou a fatura na frente do filho. O papel pareceu pequeno demais para o peso que carregava.

— Isso é a faculdade. Esse mês.

Pedro olhou, os lábios se movendo enquanto lia os valores. Passou a mão no cabelo, o mesmo gesto que o pai reconheceu de si mesmo.

— É caro — disse, baixo.

— É.

— Mas você falou que...

— Eu falei que a gente dava um jeito. — Carlos se inclinou. — E a gente vai dar. Mas não sozinho. Não do jeito que eu pensei.

Pedro levantou a cabeça.

— O que você quer dizer?

Carlos respirou fundo. Sentiu o cheiro de café fresco vindo da cozinha, o zumbido baixo da geladeira, a luz amarela do abajur projetando sombras no teto.

— Eu posso cobrir a mensalidade e a moradia. O que já está apertado, mas cabe. Agora material, transporte, livros... a gente precisa de outro plano.

— Que plano?

— Você arruma um estágio. Ou um trabalho de meio período. A universidade tem monitoria, bolsa de iniciação científica. Tem freela, aula de reforço...

Pedro cruzou os braços. A poltrona rangeu.

— Meu curso é integral. Onde eu encaixo um estágio?

— À noite. Ou fim de semana. Ou conversa com a coordenação para diminuir a carga no primeiro semestre.

— Você quer que eu trabalhe enquanto estudo?

— Quero que você entenda o que custa.

A frase ficou no ar. O vento da janela mexeu a cortina. Pedro desviou o olhar, fixou na planilha que ainda estava em cima da mesa. Esticou o braço, pegou o papel velho, alisou a dobra. Passou o dedo sobre o próprio rabisco de um ano atrás.

— Cem mil — ele leu em voz alta, a voz mais grave. — É o que custa?

— É o que custava no ano passado. Agora deve ser mais.

Pedro ficou em silêncio. Da rua, passou um carro com som alto, uma música que se aproximou e se afastou até sumir. A casa ficou quieta de novo, só o barulho da torneira na cozinha.

— E se eu conseguir uma monitoria? — disse Pedro, a voz mais firme. — O professor de Algoritmos falou que abre vaga no segundo bimestre. Paga setecentos reais.

— Setecentos ajuda. Cobre o material e o transporte, sobra alguma coisa.

— E se eu não conseguir?

— Aí a gente vê outra saída. — Carlos sustentou o olhar do filho. — Pode ser FIES. Pode ser que você pegue menos cadeiras e trabalhe mais. Pode ser que eu pegue mais hora extra. Mas a conversa é essa. Não vou esconder boleto dentro de gaveta e pagar com silêncio.

Pedro olhou para o pai. Depois para a fatura. Depois para a planilha de novo.

— Você guardou isso? — tocou no papel amassado com a ponta dos dedos.

— Guardei.

— Por quê?

Carlos pensou. Lembrou da noite em que tinha dobrado aquele papel, o barulho da torneira na cozinha, o abraço torto que Pedro deu antes de sair da sala. A promessa de não fazer promessa vazia.

— Pra não esquecer que planejar é mais barato que improvisar.

Pedro riu sem graça, um sopro pelo nariz. Levantou, pegou a fatura.

— Posso ficar com isso?

— Pode. Mas me devolve no fim do mês, que eu preciso pagar.

— Vou pagar o material — disse, já na direção do quarto. Parou na porta, virou. — Esse mês eu pago o material. Eu tenho o dinheiro do aniversário.

— Pedro, não precisa...

— Eu sei que não precisa. Mas é parte do plano, né? — ele segurou a fatura na altura do peito. — Como é que eu vou entender o que custa se você paga tudo?

Ele não esperou resposta. Desapareceu no corredor, a porta do quarto fechando com um clique suave.

Carlos ficou sentado sozinho. Olhou para as próprias mãos — estavam tremendo um pouco, ele percebeu agora. Não de medo. De alívio. A planilha ainda em cima da mesa. A caneta azul que Pedro tinha usado um ano atrás — ele a encontrou no fundo da gaveta quando foi pegar o papel de manhã. Agora estava ali, ao lado da planilha. Ele pegou, girou entre os dedos, sentiu o plástico gasto. Guardou no bolso da camisa.

A Luísa apareceu na porta da cozinha, secando as mãos no pano de prato. Olhou para ele.

— Ele levou?

— Levou. Disse que vai pagar o material.

Ela não sorriu, mas o rosto relaxou. Voltou para a cozinha.

Carlos ficou mais um tempo ali. A luz da sala, o silêncio da casa, o peso pequeno da caneta no bolso. Tinha passado o dia inteiro com medo daquela conversa. Agora que tinha acabado, se sentia mais leve — não porque o problema tivesse sumido, mas porque não estava mais carregando ele sozinho.

No fim do mês, Pedro devolveu a fatura. Colocou em cima da mesa da sala, do lado do controle da televisão. Carlos encontrou quando chegou do trabalho. No verso, escrito à mão com a mesma caneta azul:

"Material — R$ 890,00 — pago com o dinheiro do aniversário + umas aulas de reforço que dei pro filho da vizinha. Vou atrás da monitoria semana que vem. Depois te falo."

Carlos leu duas vezes. Dobrou o papel. Abriu a gaveta do escritório, onde a planilha ainda estava. Colocou a fatura ao lado. Uma ao lado da outra. O cem mil rabiscado na margem. E agora o primeiro pagamento de volta, anotado no verso, na letra do filho.

No dia seguinte, ele chegou em casa e encontrou um post-it amarelo colado na porta da geladeira. Escrito com a mesma letra:

"Pai — passei na primeira fase da seleção de monitoria. Segunda tem entrevista. Depois te conto. — P."