O ventilador de teto girava devagar, empurrando o ar quente da sala. Carlos esfregou as mãos uma na outra, sentado na ponta do sofá. Pedro ocupava a poltrona ao lado, o catálogo de cursos aberto no colo, os olhos brilhando.
— Pai, olha aqui — Pedro virou o folheto, o dedo batendo numa foto de laboratório. — Ciência da Computação na Universidade Monte Verde. Eles têm parceria com empresa de tecnologia. Estágio desde o segundo semestre.
Carlos inclinou o corpo, o couro da poltrona rangendo. Leu o nome da faculdade. Particular. Das caras. O estômago apertou.
— Interessante — a voz saiu mais fina do que ele queria. — Mas e a Federal? O curso de lá também é bom.
— Federal? Pai, são seis anos de espera na fila do vestibular. Todo mundo que eu conheço que tentou, não passou. Fora que na Monte Verde eu começo em agosto.
— É... é rápido, sim.
Pedro se inclinou para a frente, o entusiasmo vazando pelas mãos que gesticulavam.
— E tem bolsa por desempenho no Enem. Se eu tirar acima de 720, eles dão 30% de desconto. O Michel do cursinho conseguiu.
Carlos assentiu, os lábios apertados. Trinta por cento. Ainda assim, o que sobrava... ele fez a conta de cabeça, sentindo o número bater contra as costelas como um soco seco. O salário não chegava lá nem no papel.
— A gente dá um jeito — ouviu a própria boca dizer.
A frase veio antes do pensamento. Carlos viu nos olhos do filho um alívio imediato, como se aquela fosse a confirmação que ele esperava. Pedro sorriu, fechou o catálogo.
— Então vamos nessa. Posso até imprimir o formulário de matrícula hoje.
— Calma — Carlos levantou a mão. — Deixa eu... ver os números primeiro.
— Você acabou de falar que a gente dá um jeito.
— E a gente dá. Mas eu preciso entender o tamanho do... — ele tossiu. — Do que a gente vai dar jeito.
Pedro bufou, mas não disse nada. Voltou a folhear o catálogo.
Naquela noite, Carlos fechou a porta do escritório depois que a casa ficou quieta. Abriu o notebook, os dedos pairando sobre o teclado. Digitou "Monte Verde mensalidade 2026". O resultado apareceu em negrito: R$ 4.890,00.
Ele ficou olhando para o número. Leu de novo. Leu em voz alta, baixinho, como se conferir com os próprios ouvidos pudesse mudar o valor.
— Quatro mil oitocentos e noventa.
Mais material. Mais taxa de laboratório. Mais o transporte, porque o campus ficava a quarenta quilômetros. Ele abriu o extrato bancário ao lado, os números da conta corrente lado a lado com o valor da mensalidade. A conta não fechava. Não cheirava perto.
Carlos apoiou os cotovelos na mesa, enterrou o rosto nas mãos. O cheiro do café frio da caneca ao lado. O zumbido do monitor. O relógio da sala batendo meia-noite.
No dia seguinte, ele ligou para o Mário, amigo contador que dividiu república com ele na época da faculdade. Marcaram num bar perto do trabalho. Mário chegou com um guardanapo e uma caneta, pediu uma cerveja, e foi riscando números enquanto falava.
— Você não precisa falar não pro menino. Mas você precisa parar de falar "a gente dá um jeito" sem saber qual jeito. — Mário molhou o lábio na cerveja. — Senta com ele. Mostra o orçamento. O que entra, o que sai. E aí vocês montam um plano juntos. Bolsa, FIES, PROUNI, cursinho pra passar na Federal... são caminhos, não um muro.
— E se ele insistir na Monte Verde?
— Aí vocês veem o que é possível. Meio a meio. Ele estagia, você cobre o resto. Ou ele faz um ano de cursinho, passa na Federal, e a dívida não vira uma âncora.
Carlos ficou em silêncio, o copo suando na mão.
— A promessa mais cara que a gente faz é aquela que a gente não calculou — Mário disse, levantando o copo.
Em casa, Carlos pediu para Pedro sentar com ele na mesa da sala. Espalhou papéis — o extrato, uma planilha impressa, o folheto da Monte Verde. Pedro cruzou os braços, o queixo duro.
— Você vai falar que não dá, né?
— Não. Vou mostrar o que dá e o que não dá. E aí a gente decide junto.
Pedro olhou para os números. Levou tempo. No começo ele revirou os olhos, impaciente. Depois ficou quieto. Depois começou a fazer perguntas.
— Isso aqui é o que sobra depois de tudo? — apontou para a linha do meio.
— Isso, depois do aluguel, condomínio, comida, contas. O que sobra não cobre a mensalidade inteira.
— Mas com o desconto da bolsa...
— Com o desconto da bolsa, falta ainda R$ 1.200 por mês. Mais transporte, mais material, mais...
— Tá, pai. Eu entendi.
Pedro passou a mão no cabelo, suspirou. Carlos esperou. O silêncio se esticou, a cortina da sala se movendo com o vento da janela.
— E se eu fizer um ano de cursinho e tentar a Federal? — Pedro falou sem olhar para ele. — O cursinho é mais barato. E se eu passar, a faculdade é de graça.
Carlos engoliu seco.
— É um plano.
— Mas não é garantido. Passei na Monte Verde. Tô dentro. E no cursinho eu posso passar ou não.
— É verdade.
— E se eu não passar? Perdi um ano.
— Ou ganhou preparo.
Pedro levantou os olhos. Ficou encarando o pai por um instante, como se estivesse pesando alguma coisa. Depois pegou a caneta em cima da mesa e começou a rabiscar na borda da planilha.
— Se eu fizer cursinho e passar na Federal — ele foi falando enquanto escrevia —, a gente paga seis meses de cursinho, depois só material e transporte. Se eu for pra Monte Verde, são quatro anos de mensalidade. — Ele virou a planilha. — A diferença é de... caramba.
— Quanto?
— Cem mil reais. Quase.
Carlos não disse nada. Os números estavam ali, escritos à mão, no papel amassado. O filho tinha chegado sozinho à mesma conta que ele chegara na noite anterior, encolhido no escritório.
— A gente pode fazer um híbrido — Carlos arriscou. — Se você quiser, tenta o vestibular da Federal. Se passar, ótimo. Se não passar, a gente vê a Monte Verde de novo, mas com um planejamento mais realista. Eu junto uma grana nesse ano, você arruma um estágio...
— Um ano perdido.
— Um ano ganho. Você decide.
Pedro ficou em silêncio. A luz da sala já tinha mudado de tarde para entardecer. O relógio da parede marcava 18h47. Da cozinha, vinha o barulho da torneira que a Luísa tinha acabado de abrir.
— Tá — Pedro disse finalmente. — Vou tentar a Federal. Mas se eu passar na Monte Verde de novo ano que vem, a gente conversa de novo. Sem promessa vazia.
— Sem promessa vazia.
Carlos estendeu a mão. Pedro apertou, mas em vez de soltar, puxou o pai para um abraço rápido, meio torto, o tipo de abraço que filho homem dá quando não sabe dizer obrigado.
Quando Pedro saiu da sala, Carlos ficou olhando para a planilha. As marcas de caneta do filho. O número cem mil rabiscado na margem. Ele dobrou o papel com cuidado, passou o dedo na dobra, e guardou na gaveta do escritório junto com a caneta azul que Pedro tinha usado.
Sabia que um ano passava rápido. E que da próxima vez, a conversa teria que ser diferente. Porque planejar era uma coisa. Mas pagar — pagar era outra história que ainda estava por vir.
*Continua em: livreto-002.md — "Como combinar pagamento de faculdade com os filhos?"*