Carlos tinha um sonho antigo: adotar uma criança. Ele e a esposa estavam no processo há meses. Visitas, entrevistas, documentação. Falta pouco.
— Agora preciso contar no trabalho.
Ele não sabia como. Adoção ainda era um tabu. As pessoas tratavam como algo estranho, diferente de ter um filho biológico.
— Vão perguntar um monte de coisas. Vão duvidar.
Ele ficou semanas sem falar. Até que o Carlos perguntou:
— Você parece preocupado. Aconteceu alguma coisa?
— Não é preocupação. É ansiedade. Boa.
— Fala aí.
— Minha esposa e eu estamos no processo de adoção.
Carlos parou. Não fez cara de surpresa. Não riu.
— É sério? Que legal, cara.
— É. Tô ansioso pra ser pai.
— E quando sai?
— Não tem data. Mas falta pouco. A criança já foi designada.
— Olha, quando chegar a hora, me avisa. A empresa dá licença adoção. Nem todo mundo sabe. Mas você tem direito.
— Quanto tempo?
— Mesmo tempo da licença maternidade. Se for adoção de criança até 12 anos, cento e vinte dias.
— Não sabia disso.
— Muita gente não sabe. Mas é lei. E a empresa cumpre.
Carlos ficou aliviado. Ele esperava julgamento. Encontrou acolhimento.
Ele contou para a equipe no almoço:
— Pessoal, minha esposa e eu vamos adotar uma criança.
— Nossa, que notícia boa! — foi a reação geral. — Parabéns!
Ninguém questionou. Ninguém desconfiou.
— Tabu só existe enquanto a gente esconde — ele refletiu. — Quando a gente fala, vira normal.
*Continua em: 921 — Renovar ânimo no trabalho*