A voz do supervisor atravessou a sala. Todo mundo ouviu.
— CARLOS! VEM AQUI AGORA!
Carlos levantou devagar. Já sabia o que vinha. O relatório de estoque tinha um erro de digitação. Não era grave. Mas o supervisor, seu Otávio, tratava tudo como catástrofe.
— O que é isso? — Otávio apontou pro monitor. — Você não aprende? Toda semana a mesma merda!
Carlos sentiu o sangue subir. A vontade de responder no mesmo tom era forte. Mas ele respirou.
— Otávio, o erro foi na digitação do código do produto. Já corrigi. Não vai impactar o inventário.
— Isso não é desculpa! Você tem que revisar antes de enviar!
— Eu reviso. Hoje passou. Vou redobrar a atenção.
Otávio bufou. Não tinha mais o que dizer. Carlos não tinha discutido, não tinha se justificado demais, não tinha revidado.
Depois, no café, um colega comentou:
— Ele grita com todo mundo. Não é pessoal.
— Eu sei — Carlos respondeu. — Mas não significa que é certo.
— O que você vai fazer?
— Registrar. Toda vez que ele gritar, vou anotar. Se virar assédio, levo pro RH. Enquanto for só grosseria, vou tratar com profissionalismo.
— E não responde?
— Responder no grito só me rebaixa. Prefiro manter a calma.
Carlos tomou o café e voltou. Sabia que gestor que grita não grita porque está certo. Grita porque perdeu o controle. E quem mantém o controle tem mais poder.
*Continua em: 904 — Como se adaptar ao trabalho presencial após remoto?*