O corredor estava vazio quando Carlos ouviu a voz do supervisor da logística.
— Você é burro ou faz de conta? Toda semana o mesmo erro. Se não serve pra isso, vai vender pastel na esquina.
Carlos parou. Olhou de relance. O rapaz da logística, o Jean, estava de cabeça baixa, o rosto vermelho.
O supervisor passou por Carlos sem cumprimentar.
Carlos esperou ele virar a esquina e foi até o Jean.
— Tudo bem?
Jean não respondeu. Só balançou a cabeça, negando.
— Olha, o que ele fez agora não foi legal. Não foi profissional.
— Toda semana é assim — Jean falou sem levantar os olhos. — Na frente dos outros, me humilha. Já pensei em pedir as contas.
— Não faz isso. Você não tem que sair por causa disso.
— O que eu faço então?
Carlos olhou em volta. O corredor continuava vazio.
— Primeiro: começa a registrar. Data, hora, o que foi dito, quem testemunhou. Guarda tudo.
— E depois?
— Depois você leva pro RH ou pro sindicato. O que ele tá fazendo é assédio moral. A empresa tem obrigação de investigar.
Jean respirou fundo.
— Você acha que vão acreditar em mim?
— Se você tiver registros, sim. E mesmo que duvidem, não pode deixar isso passar. Você merece trabalhar com respeito.
Jean concordou. E pela primeira vez em meses, levantou a cabeça.
*Continua em: 891 — Como pedir ajuda para denunciar assédio?*