O cartaz estava colado no quadro de avisos do refeitório. Letras vermelhas e pretas: "COMITÊ DE IGUALDADE — INSCRIÇÕES ABERTAS".
Carlos passou por ele na hora do almoço. Parou. Leu de novo.
— Vai se inscrever? — a voz veio das mesas atrás. Era a Jéssica, do RH.
— Tô pensando — ele respondeu.
— Pensa rápido. Fecham as inscrições sexta.
Carlos pegou o bandeijão e sentou. Ficou olhando pra comida sem ver.
A irmã dele já tinha sido preterida numa promoção. Disseram que ela "não tinha perfil". Ela tinha tudo que os outros tinham. Só que era mulher, preta, e falava alto.
Ele mastigou devagar.
Depois do almoço, subiu pro RH. A Jéssica estava no computador.
— O que precisa pra participar?
— Só preencher uma carta de interesse falando por que você quer participar.
— Posso escrever agora?
— Pode.
Ela deu a folha e uma caneta. Carlos sentou na cadeira na frente dela. Passou a mão no papel liso.
Escreveu: "Quero participar porque vi gente boa perder oportunidade por motivo que não tem nada a ver com competência. E quero ajudar a mudar isso."
Entregou.
Jéssica leu e balançou a cabeça.
— Boa resposta, Carlos.
Ele desceu as escadas com o estômago quente. Não sabia se ia ser aceito. Mas já tinha feito a parte dele.
*Continua em: 883 — Como definir limites entre trabalho e vida pessoal?*