O telefone tocou três vezes antes de Carlos atender. Do outro lado, a voz da tia parecia cansada.
— Carlos, o Pedro foi chamado pra um bico no fim de semana. O pessoal da oficina precisa de um ajudante. Ele quer muito ir.
Carlos segurou o telefone entre o ombro e a orelha enquanto fechava a marmita vazia.
— Quantos anos ele tem?
— Quinze. Mas é só varrer e organizar peça. Nada pesado.
— Tia, não é sobre ser pesado. É sobre autorização.
Ele ouviu o silêncio do outro lado.
— Que autorização?
Carlos apoiou a mão na pia. Lembrou da época que ele mesmo trabalhou sem registro, sem nada, porque ninguém explicou como funcionava.
— Existe um documento que os pais ou responsáveis precisam assinar. Autorização para trabalho de menor. É obrigatório. Sem isso a empresa não pode contratar, nem pra bico.
— E onde consegue isso?
— No Ministério do Trabalho, ou no sindicato. Vou te mandar o link. Mas mais importante: precisa levar o Pedro no posto de saúde pra fazer exame admissional. Menor de idade tem direito a acompanhamento.
— Não sabia de nada disso — a tia disse, a voz mais baixa.
— Por isso eu tô te contando.
Carlos desligou e ficou olhando pra tela do celular. Quinze anos, querendo trabalhar. Ele entendeu o Pedro. Mas entendeu também que tinha coisa que ninguém contava pra gente simples.
Ele abriu o bloco de notas e começou a escrever os passos que a tia ia precisar seguir.
*Continua em: 882 — Como participar de movimento por igualdade no trabalho?*