Carlos estava travado. Não conseguia escrever uma linha do capítulo três. Sentava na frente do computador, olhava pra tela, mexia no celular, abria o Instagram, fechava, abria o Word, escrevia uma frase, apagava, escrevia outra, apagava de novo.
A semana passou. Depois outra. O capítulo continuava em branco.
Ele tinha vergonha de admitir. O orientador confiava nele. Os colegas perguntavam como estava o TCC e ele respondia "tudo sob controle". Mentira.
Até que a Luísa pegou ele no meio da tarde no sofá, olhando pro teto.
— Você não devia estar escrevendo?
— Não consigo.
— Então fala com o orientador.
— Falar o quê? Que eu não consigo fazer o básico?
— Falar que você tá com dificuldade. É diferente.
Carlos mandou uma mensagem pro orientador.
— Orientador, posso passar na sala amanhã? Tô com dificuldade no capítulo três e queria conversar.
No dia seguinte, o orientador ouviu sem interromper.
— É o seguinte: eu sento pra escrever e não sai nada. Já tentei mudar de horário, já tentei escrever à noite, de manhã, depois do almoço. Não sai.
O orientador apoiou o cotovelo na mesa.
— Você sabe o que quer dizer no capítulo?
— Sei. Tenho o plano, os autores, os dados. Mas na hora de transformar em texto, não flui.
— Isso se chama bloqueio de escrita. É normal. O erro é tentar escrever perfeito de primeira. Escreva uma versão ruim. Depois você melhora. Texto perfeito não existe na primeira versão.
— Tentar escrever qualquer coisa, mesmo que esteja mal escrito?
— Isso. Depois a gente revisa junto. Mas escreva. Não importa a qualidade.
Carlos voltou pra casa e escreveu três páginas ruins no mesmo dia. No dia seguinte, mais quatro. Uma semana depois, o capítulo estava pronto. Não era perfeito, mas existia. E existindo, dava pra melhorar.
*Continua em: 547 — Como pedir ao orientador para participar de congresso acadêmico?*