Carlos não dormiu direito naquela noite. Durante o intervalo, um colega tinha feito um comentário sobre a cor da pele dele. Não foi a primeira vez. Sempre tinha uma "piada", um "sem querer", um "não foi por mal".
Mas naquele dia, Carlos sentiu que não dava mais pra engolir.
Ele passou a manhã pensando se devia falar com alguém. Tinha medo de ser chamado de fresco, de exagerado, de estar criando caso. Mas a Luísa foi direta:
— Se você não falar, ele vai continuar fazendo.
Carlos foi até a coordenação. O coordenador estava na sala. Fechou a porta quando viu a expressão no rosto de Carlos.
— Carlos, o que houve?
— Coordenador, eu queria reportar uma situação. Um colega da sala vem fazendo comentários racistas comigo. Hoje de novo. Disfarçados de piada. Mas não é piada.
O coordenador ficou sério. Pegou um bloco.
— Você tem testemunhas?
— Teve gente perto. Não sei se ouviram.
— Tudo bem. Me conta exatamente o que foi dito e quando.
Carlos contou. O coordenador anotou tudo.
— Carlos, você fez certo em vir. A faculdade tem uma política de tolerância zero pra discriminação. Eu vou abrir um procedimento interno. A gente vai ouvir você, ouvir o outro aluno, ouvir testemunhas. E vou garantir que você não sofra retaliação.
— E se ninguém confirmar?
— Não depende de confirmação de terceiros. O relato da vítima tem peso. Mas se você se sentir desconfortável em continuar na mesma sala, a gente pode remanejar.
Carlos pensou.
— Quero continuar na sala. Não fiz nada de errado.
— Respeito sua decisão. Vou acompanhar de perto. Qualquer coisa, volta aqui.
Carlos saiu da sala cansado, mas aliviado. Tinha feito o que precisava ser feito.
*Continua em: 536 — Como pedir ao coordenador inclusão em disciplina com vagas limitadas?*