— Notei que você tem um período de oito meses sem registro em 2021. Pode me contar sobre isso?
O recrutador olhou pra ele sem julgamento. Só curiosidade.
Carlos já tinha se preparado pra essa pergunta. Antes, ele tentava disfarçar o gap — dizia que tinha feito freelas, projetos pessoais, qualquer coisa que parecesse produtiva. Mas sempre soava como desculpa.
— Foi logo depois que eu saí da transportadora anterior — ele disse. — Pedi demissão sem ter outro emprego. Fiquei oito meses procurando.
— E o que aconteceu nesse período?
— Eu me inscrevi em vagas, fiz entrevistas, recebi alguns nãos. Também fiz um curso de gestão de estoque que uso até hoje. Mas principalmente: aprendi a não pedir demissão sem plano B.
O recrutador riu baixo.
— Essa é uma lição que muita gente aprende do jeito difícil.
— Foi o meu caso. Mas o gap me ensinou mais que muitos acertos. Quando voltei pro mercado, entrei com mais maturidade.
O recrutador anotou alguma coisa.
— E como você explica o gap hoje?
— Como um período de transição. Saí de um lugar que não era mais pra mim, demorei a encontrar o próximo. Acontece.
O recrutador levantou a cabeça.
— É raro alguém falar isso com tanta naturalidade.
— É a verdade. Fingir que não aconteceu seria pior.
Carlos saiu da entrevista sentindo que o gap não era mais um peso. Era só parte da história. E histórias verdadeiras são mais fáceis de contar.
*Continua em: 367 — Como lidar com silêncio do RH após entrevista?*