Seu Aldo chamou Carlos perto do café. A máquina chiou enquanto ele enchia a caneca.
— Você tem mexido com o sistema de roteirização, né?
— Tenho sim. Mas ainda tô aprendendo.
— Eu vi um erro no relatório que você gerou ontem. A rota da zona sul.
— Erro? — Carlos sentiu o estômago apertar.
— Calma. Não é grave. Mas o sistema tava desconsiderando o horário de restrição de carga e descarga no centro. Você sabia que tem rua lá que só pode descarregar depois das 21h?
— Não sabia.
— Pois é. Trinta anos de estrada, meu filho. O sistema não sabe disso. Quem sabe é quem já andou no asfalto.
Carlos pegou a caneca e tomou um gole. O café estava forte.
— Como o senhor descobriu isso?
— Porque um motorista reclamou no ano passado. Eu anotei. — Seu Aldo puxou um caderno surrado do bolso da calça, as páginas amareladas. — Aqui: Rua Marechal, 200 a 450, carga só após 21h.
— O senhor mantém caderno?
— O sistema muda. A cidade não. Rua de centro tem regra própria. Carga e descarga, horário de funcionamento, feira livre na quarta. Tudo anotado.
— Posso ver?
— Pode. Mas devolve. É meu tesouro.
Carlos folheou o caderno. As anotações eram em letra miúda, caprichada, com anos e observações na borda. O cheiro do papel velho subiu ao tocar as páginas.
— Vou atualizar a rota.
— Faz isso. Depois me mostra.
Carlos voltou para a mesa com o caderno na mão. A capa desgastada era macia sob os dedos.
Continua em: 1528 — Como lidar com estagiários?