Como lidar com quem desvaloriza sua profissão?

Carlos

O tio Paulo colocou mais carvão na churrasqueira. A fumaça subia cinzenta no ar da tarde.

— E você, Carlos, ainda nessa coisa de escritório?

— Tô sim, tio.

— Puxa vida. Por que não arruma um serviço de verdade? Vira eletricista que nem seu pai era. Isso dá dinheiro.

Carlos sentiu o calor do fogo no rosto. A brasa estalou.

— Gosto do que faço, tio.

— Mas é trabalho de escritório. Ficar sentado o dia todo. Isso não é trabalho.

Carlos respirou fundo. Sentiu o cheiro de carne queimando.

— Tio, o senhor já viu um centro de distribuição por dentro?

— Já, na televisão.

— Então. O que eu faço impacta direto na operação. Se eu erro uma rota, o caminhão atrasa, a mercadoria não chega, a empresa perde dinheiro. Não é só sentar na frente do computador.

O tio Paulo virou a carne, os pingos caindo na brasa.

— Hum.

— Cada profissão tem seu valor. O senhor foi pedreiro a vida inteira. Construiu coisa que tá de pé até hoje. Minha contribuição é diferente, mas também existe.

O tio ficou em silêncio por um instante. O vento quente da churrasqueira passou entre os dois.

— É, cada um com seu dom — ele disse, virando mais uma costela.

Carlos deu um gole no refrigerante. O barulho das crianças brincando enchia o quintal.

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