O churrasco na casa do Beto estava cheio. Parentes, amigos, crianças correndo pelo quintal. Carlos segurava um copo de refrigerante quando o primo de segundo grau, um cara que ele via uma vez por ano, se aproximou.
— E aí, Carlos, o que você faz?
A pergunta veio solta, casual. Mas Carlos sentiu aquele aperto no estômago. Sempre que alguém perguntava, ele pensava em todas as respostas possíveis antes de escolher uma.
— Trabalho com operações logísticas numa transportadora.
— Tipo, você dirige caminhão?
— Não. — Carlos riu. — Eu analiso as rotas, os prazos, os custos. Coordeno a equipe que faz o planejamento.
— Ah, então é tipo administração?
— Isso. Administração focada em logística.
O primo balançou a cabeça, parecendo entender. Mas Carlos viu o olhar dele desviar para a mesa de salgados.
— Na prática — Carlos continuou —, é garantir que a mercadoria saia de um lugar e chegue no outro no tempo certo, gastando o mínimo possível.
— Parece complicado.
— É um quebra-cabeça todo dia. Mas é legal.
O primo sorriu, mais interessado agora.
— Entendi. É tipo um estrategista de entregas.
— Isso. Gostei dessa definição.
O primo bateu no ombro dele e foi pegar uma cerveja. Carlos ficou parado, sentindo o gelo do copo na palma da mão. Estratégista de entregas. Não era o cargo oficial, mas resumia bem.
Continua em: 1522 — Como lidar com quem desvaloriza sua profissão?