O assunto surgiu sem querer no almoço. Alguém comentou sobre os novos salários da área, e o Felipe, sem maldade, soltou:
— Po, meu salário mal dá pra pagar as contas. Quinze anos de empresa e tiro isso.
O número veio. Carlos calculou rápido. Ele ganhava quase quarenta por cento a mais.
O arroz ficou seco na boca. O Felipe tinha mais tempo de casa. Trabalhava tanto quanto ele. E ganhava menos.
Na volta para o escritório, Carlos não conseguia parar de pensar. O que ele deveria fazer? Contar para o colega? Falar com o Carlos? Ficar calado?
Ele foi para a mesa, mas não conseguiu render.
No fim do dia, bateu na sala do Carlos.
— Carlos, posso falar uma coisa?
— Fala.
— Eu fiquei sabendo que o Felipe ganha menos que eu. E ele tá há mais tempo na empresa.
Carlos recostou na cadeira.
— Isso não é informação que eu possa comentar.
— Eu sei. Mas me sinto estranho.
— Por quê?
— Porque parece injusto.
Carlos inclinou a cabeça.
— Cada salário é negociado individualmente. Você negociou melhor. Ou teve méritos que o Felipe não teve. Isso não é seu pra resolver.
— Mas é desconfortável.
— Então não comente com ele. Não é seu lugar. Se o Felipe acha que merece mais, ele precisa falar comigo ou com RH. Não com você.
Carlos saiu da sala. Não era fácil. Mas o Carlos tinha razão. A responsabilidade não era dele.
No dia seguinte, ele tratou o Felipe como sempre. Sem culpa. Sem constrangimento. A diferença salarial não mudava o respeito que ele tinha pelo colega.
*Continua em: 150 — Como alinhar expectativas com parceiro?*