Carlos estava com a planilha aberta, conferindo os dados do relatório quinzenal. Ele tinha passado a manhã inteira cruzando informações.
— Carlos, deixa eu ver uma coisa.
Era o Paulo, da mesa ao lado. Carlos ainda não tinha terminado de pensar a resposta e o Paulo já estava inclinado sobre a tela dele.
— Esse índice aqui — Paulo apontou. — Você devia calcular de outro jeito. Faz mais sentido usar a média ponderada.
Carlos olhou para o ponto que o colega indicava. Ele já sabia que a média ponderada não se aplicava naquele caso. Tinha verificado duas vezes.
— Valeu, Paulo — ele disse. — Mas já conferi. O cálculo tá certo.
— É que eu vi um erro parecido mês passado — Paulo insistiu. — O relatório foi pra diretoria errado. Quase deu problema.
— Eu conferi — Carlos repetiu, mais firme. — Tá dentro do padrão.
Paulo deu de ombros e voltou para a mesa dele.
Carlos ficou olhando pra tela. O palpite não era mal-intencionado. Mas vinha toda hora. Na reunião, no e-mail, no corredor.
Na semana seguinte, aconteceu de novo. Carlos estava montando a apresentação pro cliente quando o Paulo apareceu.
— Carlos, esse slide. Você já pensou em colocar um gráfico de pizza?
Carlos respirou fundo. Virou a cadeira.
— Paulo, eu agradeço a intenção. Mas quando eu precisar de ajuda, eu peço. Combinado?
Paulo piscou. Abriu a boca. Fechou.
— Tá bom. Foi mal.
— Sem problema.
Carlos voltou para a tela. Dessa vez, o palpite não voltou.
*Continua em: 142 — Como recusar convite de colegas para sair sem magoar?*