A colega chegou no escritório com o olho vermelho. Carlos percebeu na hora. Ela passou direto pela mesa dele sem dar bom dia, coisa que nunca fazia.
No meio da tarde, ele recebeu uma mensagem dela no chat:
— Carlos, posso falar com você?
— Claro.
Ela pediu para se encontrarem na sala de reunião vazia. Carlos foi.
Ela fechou a porta e sentou com as mãos trêmulas.
— Aconteceu uma coisa — ela disse, a voz falhando. — O [gerente] fez comentários... comentários que não devia. Sobre meu corpo. Sobre minha roupa. E hoje ele me chamou na sala dele e falou coisas piores.
Carlos sentiu o estômago virar.
— Você quer denunciar?
— Tenho medo.
— Do que?
— De não acreditarem em mim. De eu perder o emprego. De todo mundo ficar do lado dele.
Carlos respirou fundo. Ele sabia que não podia resolver por ela. Mas podia apoiar.
— O que você precisa de mim?
— Só de alguém que saiba. E que não me julgue.
— Tô aqui.
Ela começou a chorar baixinho.
— Obrigada.
Carlos sentou em silêncio. Depois disse:
— Se você decidir denunciar, eu vou com você. Se precisar de testemunha do que me contou, eu confirmo. Se quiser só alguém do lado no RH, eu vou.
Ela levantou os olhos.
— Você faria isso?
— Tô falando.
Na semana seguinte, ela abriu a denúncia. Carlos foi com ela. O RH investigou. O gerente foi afastado.
Não era sobre resolver. Era sobre não deixar ninguém passar por aquilo sozinho.
*Continua em: 119 — Como manter contato com ex-colegas de trabalho?*