O anúncio veio numa reunião geral. O novo coordenador da área era o mesmo cara que sentava ao lado do Carlos na faculdade, tomava cerveja com ele nos fins de semana, e sabia o nome do ex-namorado da Luísa.
O amigo agora era chefe.
Na primeira semana, o amigo — agora coordenador — chegou na mesa do Carlos e falou num tom informal:
— E aí, meu parceiro, tudo certo com o relatório?
— Tudo — Carlos respondeu, sem jeito.
Mas não estava tudo certo. O relatório estava atrasado. E Carlos não sabia como dizer. Porque antes ele diria "cara, tô enrolando, mas resolvo". Agora parecia que qualquer resposta virava justificativa.
O conselheiro de carreira ouviu a história e resumiu:
— Você não perdeu um amigo. Você ganhou um chefe que te conhece. O problema não é ele. É você continuar tratando como amigo numa relação que mudou.
— Como eu faço?
— Seja profissional. Marca reunião. Trata com respeito. Não usa a intimidade como atalho. E não usa a intimidade como desculpa.
Carlos passou a tratar o amigo como tratava o Carlos. Reunião marcada. Pauta definida. Entrega combinada.
No primeiro feedback formal, o coordenador disse:
— Senti que você se afastou.
Carlos respondeu:
— Não me afastei. Só quero que as coisas fiquem claras. Nossa amizade existe fora daqui. Dentro, você é meu chefe.
O coordenador balançou a cabeça.
— É isso mesmo. Valeu.
Amizade e hierarquia podem coexistir. Desde que cada uma ocupe o lugar dela.
*Continua em: 113 — Como lidar com chefe que quer ser seu amigo?*