O novo diretor era grosso. Dava ordens como se Carlos fosse subalterno, não profissional.
— Carlos, faz isso agora. Depois faz aquilo. E não erra.
Carlos se sentia um menino de recados.
— Ele fala comigo como se eu não tivesse valor — Carlos desabafou com a Renata.
— Você se sente assim porque você permite. Não no sentido de aceitar. No sentido de não separar a forma do conteúdo.
— Como assim?
— A ordem pode ser necessária. O tom é que é desrespeitoso. Você pode cumprir a ordem sem absorver o desrespeito.
Carlos começou a praticar o desapego.
Quando o diretor dava uma ordem grossa, ele respondia profissionalmente:
— Entendido. Vou priorizar isso. Posso confirmar o prazo até o fim do dia?
Ele não revidava. Não se justificava. Só executava.
— Você não precisa gostar de quem manda. Precisa fazer o seu trabalho bem feito.
Com o tempo, o diretor percebeu que Carlos não se abalava. Passou a ser mais educado. Não porque mudou o caráter. Porque Carlos não reagia.
— Receber ordem não é humilhação. Humilhação é você se colocar abaixo do outro na sua própria cabeça.
— Você não é seu cargo. Você é seu valor. Ordem não diminui valor.
— Faz o seu, bem feito, com dignidade. O tom do outro é problema do outro.
*Continua em: 1118 — Como receber tarefa que não quer fazer?*