Carlos estava na mesa dele quando o e-mail chegou. O cliente principal, aquele que representava trinta por cento do faturamento do trimestre, tinha cancelado o contrato.
Ele leu três vezes. Cada leitura piorava.
— Merda — ele murmurou, baixinho.
O colega da mesa ao lado olhou.
— Tudo bem?
— Tudo.
Não estava. Carlos passou os dedos no cabelo e olhou para a sala do Carlos. A porta estava entreaberta. Dava pra ver a luz do abajur de mesa.
Ele sabia que precisava contar. Mas como?
Deixar pra depois? Mandar um e-mail? Esperar o Carlos descobrir sozinho?
Nenhuma opção parecia boa.
Carlos levantou. Andou até a sala. Bateu na porta.
— Carlos, tem um minuto?
Carlos ergueu os olhos do monitor.
— Pode entrar.
Carlos sentou na cadeira da frente e colocou o celular na mesa, virado para o chefe.
— Recebi agora. O cliente cancelou.
Ele mostrou a tela. Não rodeou. Não disse "tem uma coisa que eu preciso falar". Disse direto.
Carlos leu. Franziu a testa. Ficou uns segundos em silêncio.
— Desde quando?
— Agora. Acabei de receber.
— E o que você já pensou sobre isso?
Carlos respirou. Tinha pensado, sim. Nos dois minutos de corredor até ali.
— A gente pode redirecionar a equipe pro projeto que tava parado. E eu posso ligar pro cliente amanhã pra entender se tem chance de reversão. Mas não vou prometer nada.
Carlos inclinou a cabeça.
— Você já veio com solução.
— A má notícia é minha pra dar. A solução também.
Carlos segurou a caneta. Não sorriu, mas o olho dele mudou.
— Ok. Traz um plano até amanhã.
Carlos saiu da sala com a respiração mais leve. A notícia continuava ruim. Mas ele não carregava mais o peso dela sozinho.
*Continua em: 082 — Como receber uma crítica do chefe?*