O café esfriou de novo na mesa do escritório. Carlos estava na sala de reunião vazia, meia hora antes do horário marcado com o Carlos. Ele ensaiou as palavras baixinho, como quem decora um texto.
— Carlos, eu quero pedir um aumento porque...
Parou.
— Carlos, eu acho que mereço um aumento porque...
Parou de novo.
Nenhuma versão soava bem.
Ele respirou fundo e lembrou do que o conselheiro de carreira disse na última sessão:
— Não é sobre o que você merece. É sobre o que você entrega. Merecimento é subjetivo. Entrega é concreto.
Carlos abriu o bloco no celular. Lá estava a lista que ele preparou: projetos que liderou, processos que otimizou, horas extras que fez sem reclamar. Tudo com números.
Ele fechou o bloco quando ouviu passos no corredor.
Carlos entrou.
— Carlos. Pronto?
— Pronto.
Carlos sentou na cadeira em frente à mesa. O ar condicionado estava ligado, mas a mão dele suava.
— Carlos, eu vim falar sobre minha posição aqui.
Carlos ajustou os óculos. Não falou nada. Só esperou.
Carlos respirou. Olhou pro bloco mental. E falou.
— Nos últimos dois anos, eu liderei três projetos de otimização. Cada um reduziu custo operacional em pelo menos oito por cento. O último, em específico, economizou cento e vinte mil reais no ano.
Ele fez uma pausa.
— Eu não estou pedindo aumento porque acho que mereço. Estou pedindo porque os números mostram que eu entrego acima do que meu cargo exige.
Carlos inclinou o corpo para trás. Olhou para Carlos por um longo segundo.
— Finalmente — ele disse, com um meio sorriso.
Carlos piscou.
— Como?
— Finalmente você vem preparado. Da outra vez você ficou rodeando. Hoje você veio direito.
Carlos soltou o ar que segurava.
*Continua em: 027 — Como ter paciência para crescer na carreira?*