O relógio na parede marcava 17h48. A tela do computador já estava preta há dez minutos. Carlos ainda estava sentado, a caneca de café fria na mão, os olhos fixos na planilha que ele fechou três vezes.
— Ainda aqui? — o segurança passou com o molho de chaves balançando.
— Já vou — Carlos disse.
Mas não foi.
Ele abriu a gaveta, pegou o celular, destravou. O contato do Rodrigo estava ali, a dois toques de distância. Rodrigo era da mesma área, mesmo cargo, contratado dois anos depois dele. E ganhava mais. Carlos tinha certeza.
Ele sabia porque viu sem querer. Um print de holerite esquecido na impressora. O número ficou gravado na cabeça.
— Perguntar é constrangedor — ele murmurou.
Guardou o celular. Pegou de novo. Destravou.
A mensagem começou e foi apagada três vezes.
Na quarta, ele escreveu: "Rodrigo, tudo bem? Trocar uma ideia sobre salário? Tô pensando em pedir aumento e queria entender como você fez."
Enviou antes de pensar.
O verde da mensagem apareceu. Carlos colocou o celular virado na mesa.
Dez minutos depois, vibrou.
Rodrigo respondeu: "Claro. Mas a melhor pessoa pra isso não sou eu. Fala com o conselheiro de carreira que o RH indicou. Ele ajuda a montar o argumento certo sem precisar comparar com ninguém."
Carlos leu duas vezes. Colocou o celular no bolso e foi embora.
No caminho, pensou que talvez o problema não era saber quanto os outros ganhavam. Era saber o que fazer com essa informação.
*Continua em: 022 — Como conversar com conselheiro de carreira?*