Eram duas da manhã e Carlos estava com o notebook no colo, a tela azul iluminando o quarto escuro. A conversa com a Luísa tinha terminado há quarenta minutos. Ela mandou um áudio se despedindo — a voz rouca, um riso no final — e ele ouviu três vezes antes de responder com um "dorme bem" seco.
Dois meses desde o evento.
Primeiro foi o LinkedIn, uma mensagem dele agradecendo pela palestra. Ela respondeu no mesmo dia. Depois vieram as indicações de livros, os artigos compartilhados, as perguntas sobre o trabalho dele. Ele contou do projeto que estava travado; ela mandou um áudio de três minutos com sugestões.
A amizade veio sem estardalhaço. Era natural, quase inevitável — como se os dois tivessem descoberto um atalho que ninguém mais conhecia.
Mas tinha algo mais. E não era amizade.
Carlos sabia disso desde a segunda semana, quando passou a verificar o celular antes de dormir, quando começou a reler as mensagens dela, quando percebeu que guardava cada detalhe — o jeito que ela escrevia "kkkk" com um k só, o chiado no fundo dos áudios, a forma como ela lembrava de coisas que ele contou uma única vez.
Ele sabia. Mas não fazia nada.
O cursor piscava no campo de mensagem. Ele olhou pro teto. O ventilador cortava a luz do poste em fatias.
— Se eu falar, posso perder ela — murmurou pro escuro. — Se eu não falar, já perdi.
Respirou fundo. As mãos tremiam. Apoiou os dedos no teclado.
Digitou.
"Lu, tô há umas semanas querendo te falar uma coisa."
Apagou.
Digitou de novo.
"Você já deve ter percebido, mas..."
Apagou.
A quarta tentativa veio mais curta.
"Lu, não precisa responder agora. Mas eu quero algo mais do que amizade. Só queria que você soubesse."
Ele leu três vezes. O dedo pairou sobre o Enter.
Lembrou do evento. Do caderno. Do café que esfriou enquanto ela falava. Do nome dela ecoando na cabeça dele — uma âncora, não mais um eco.
Mandou.
Colocou o celular virado na mesa ao lado da cama. O coração batia no pescoço. Ficou olhando o teto, o ventilador, a fatia de luz.
Três horas depois, a tela acendeu.
Ele pegou o celular com a mão trêmula. A mensagem dela ocupava duas linhas:
"Demorou. Tava esperando você falar."