O café queimou a língua. Ela soprou a xícara, deu outro gole, e atravessou o salão em direção ao rapaz da camisa azul. Ele ainda estava perto do balcão, o copo de café intacto — a mão dele apertava o copo como se fosse um talismã.
— Café frio é trágico — ela disse, parando ao lado.
Ele virou o corpo rápido demais. — É, eu... — Olhou o próprio copo. — Ainda não comecei.
Luísa sorriu. Ficou em silêncio por um instante, deixando o espaço respirar. Não queria que parecesse entrevista.
— Gostei do seu caderno.
— Hã?
— Você anotou minha palestra inteira. Reparei.
Ele relaxou os ombros meio centímetro. — É que eu trabalho com design de produto. E o que você falou sobre hierarquia visual... fez sentido. Coisa que nos livros parecia grego.
— Grego é generoso. Nos livros parece burocracia.
Ele soltou um riso baixo. O primeiro dela.
— Carlos — ele disse, virando o corpo para encará-la de frente.
— Luísa.
— Eu sei.
Ela ergueu a xícara, disfarçando o calor que subiu no rosto. Não era vergonha. Era surpresa — de estar gostando daquela conversa mais do que esperava.
Falaram dos livros que ele tinha lido, de um projeto que ela estava tocando no estúdio, de como é estranho chegar sozinho num evento cheio de gente que já se conhece. Ele falava mais agora. Cada frase vinha menos travada. A certa altura, ele apoiou o cotovelo no balcão e esqueceu do copo.
— Você sempre vem sozinha nesses eventos? — ele perguntou.
— Geralmente sim. Minha sócia diz que eu sou antissocial profissional.
— E é?
Ela pensou antes de responder.
— Não. Só acho que conversa boa não precisa de plateia.
Ele baixou o olhar. O caderno ainda estava na mão esquerda, a capa meio amassada. Luísa percebeu que ele não largava o caderno desde a palestra. Como se fosse um escudo.
— Posso te fazer uma pergunta? — ela disse.
Ele ergueu os olhos.
— O que te trouxe aqui hoje? Sozinho, num evento de design, anotando tudo?
Ele demorou. Engoliu seco.
— Acho que eu queria entender se tô no caminho certo.
O silêncio que veio não pesou. Ela segurou a xícara morna e sentiu que a resposta era maior que a pergunta.
— Que bom — disse. — Porque a gente nunca tem certeza. Mas é melhor descobrir isso acompanhado.
Ele não respondeu. Mas o caderno desceu da altura do peito.
Uns quinze minutos depois, o café estava frio. Ela olhou o fundo da xícara, depois o copo intocado dele.
— Trágico — ela repetiu, apontando com o queixo.
Ele riu de novo. E Luísa guardou aquele som.