"Qual o jeito certo de fazer uma palestra em um evento?"

Luísa

Trinta minutos antes de subir no palco, ela refez o slide de abertura três vezes.

Não que houvesse algo errado. A fonte estava certa, a imagem alinhada, o título dizia exatamente o que precisava dizer. Mas a mão dela não parava de mexer no mouse. Era o nervoso de sempre — aquele que vinia antes de toda palestra, que a fazia repassar os pontos em voz alta no banheiro do evento.

Luísa fechou o notebook. Respirou. Olhou no espelho do banheiro — o blazer vermelho bordô estava no lugar, o cabelo preso, o batom passado. Parecia calma. Ninguém via o coração acelerado.

— Luísa, cinco minutos.

Ela subiu. A luz quente do refletor bateu no rosto, a plateia era um mosaico de silhuetas. Alguns celulares acesos, um burburinho que foi morrendo quando ela se aproximou do púlpito.

Apoiou a mão no queixo — o gesto de sempre — e começou.

Falou de processo criativo, de ouvir o usuário antes de desenhar solução, de como errar cedo economiza tempo. As palavras saíam certas, ensaiadas. Ela sabia o conteúdo de trás pra frente. Mas alguma coisa não encaixava. Estava falando para entregar, não para conectar. O olhar passava por cima das cabeças, focando no vazio do fundo.

Foi quando reparou nele.

Um rapaz no meio da plateia, camisa azul clara, cabeça baixa. Não no celular. Ele escrevia num caderno pequeno, daqueles de bolso, e erguia os olhos de vez em quando para encontrar os dela. Não desviava. Ficava ali, o olho fixo, a caneta parada no ar enquanto ouvia.

Ela prendeu o ar por um segundo.

— Deixa eu perguntar uma coisa — falou, virando o corpo para a plateia. — Quantas pessoas aqui já sentaram na frente de um projeto e pensaram: "não sei por onde começar"?

Algumas mãos subiram. Uns sorrisos. A tensão na sala mudou de textura.

Ela desacelerou. Fez uma pausa maior entre os parágrafos. Esperou as pessoas absorverem antes de seguir. O rapaz da camisa azul escreveu alguma coisa. Ela viu a caneta se mover, o pulso firme, e sentiu o próprio corpo relaxar.

— A hierarquia visual não é sobre o que grita mais alto — disse, olhando na direção dele. — É sobre o que guia o olhar na direção certa.

Ele anotou de novo.

A partir dali, a palestra fluiu diferente. Ela fazia perguntas, esperava, ajustava o tom conforme as expressões. Não era mais uma transmissão. Era uma troca. O microfone pesava menos. O suor na nuca secou.

Quando terminou, os aplausos vieram quentes. Ela agradeceu, deu um passo para trás, e desceu do palco.

No caminho para o coffee break, viu ele parado perto do balcão. O caderno ainda na mão, o copo de café intacto, o olhar perdido no movimento das pessoas. Ele não tinha ido embora. Ficou.

Ela sentiu qualquer coisa — um puxão leve, no fundo do peito.

Passou reto, pegou uma xícara vazia, e sentiu o cheiro do café fresco enchendo o ar. Sabia que ia falar com ele. Só não sabia ainda como.