"Qual o jeito certo de ir sozinho em um evento de networking?"

Carlos

O nó da gravata apertou quando ele viu a fila de entrada. Quarenta minutos na frente do espelho — a camisa azul clara amassada de tanto vestir e tirar — e agora o colarinho já suava antes mesmo de ele passar pela catraca.

Carlos segurou o crachá como quem segura uma bússola. O salão era grande. Luzes penduradas no teto, estandes de empresas, um palco vazio no fundo. E pessoas. Muitas pessoas. Todas conversando em grupos que pareciam selados a vácuo.

— Café? — uma moça de crachá amarelo ofereceu uma bandeja.

Ele pegou um copo agradecendo mais pelo gesto do que pela sede. Agora tinha as mãos ocupadas. Ponto pra ele. Andou sem direção, o celular no bolso — não ia dar o braço a torcer de fingir que tinha mensagens urgentes. Ficava de pé num canto, olhando as estantes de livros, os banners, o pé dos outros. Qualquer coisa menos encarar o vazio de não ter ninguém pra falar.

— Daqui a quinze minutos a gente começa — alguém anunciou perto do palco. — Palestra de abertura com a Luísa Martins, do Estúdio Cria.

Ele respirou fundo. Pelo menos sentado era mais fácil.

A palestra começou. Ela subiu no palco — cabelo preso, blazer vermelho bordô, postura ereta — e Carlos esqueceu de mexer no celular pela primeira vez em horas. Ela falava de design centrado no usuário, de hierarquia visual, de ouvir antes de criar. Mas não era o que ela dizia. Era como ela dizia. As pausas certas. A mão apoiada no queixo. O olho na plateia.

Ele puxou o caderno do bolso. Nunca anotava nada em evento. Naquela noite, preencheu duas páginas.

Quando a palestra terminou, os holofotes se acenderam. A plateia se espalhou. Carlos ficou parado perto do balcão de café, o copo já morno, o caderno ainda aberto. O nome dela ecoava na cabeça. Luísa. Queria falar com ela. Queria agradecer, dizer que o que ela falou fez sentido, que os livros que ele tinha lido sobre o assunto pareciam chinês perto da clareza dela.

Mas o pé não saía do chão.

Ela desceu do palco, passou por algumas pessoas, parou pra falar com um organizador. Depois virou a cabeça e o olhar dela varreu o salão. Parou nele.

Ela atravessou a sala.

— Você parece estar procurando alguma coisa.

Não era pergunta. Era constatação. Carlos abriu a boca, fechou. O caderno ainda na mão.

— É que... — ele começou. Não sabia terminar.

Ela esperou. O silêncio não era incômodo. Ele sentiu o próprio estômago desapertar um grau.

— Eu gostei da sua palestra — conseguiu dizer. — Anotei umas coisas.

Ela sorriu, um sorriso pequeno, de canto.

— Posso ver?

Ele entregou o caderno. Ela folheou, leu uma linha, ergueu uma sobrancelha. Depois devolveu.

— Você anota como quem desenha — disse.

Carlos não soube dizer se era elogio. Antes que pudesse responder, ela apontou com o queixo pro lado.

— Vou pegar café. Vem se quiser.

E não esperou ele responder. Só virou as costas e andou.

Ele foi. Passo torto, mão suada, mas foi.

O nome dela — Luísa — já não era mais um eco. Era uma âncora.